Sobre o amor + Quiche de abobrinha com polenguinho

Eu, que sempre me achei uma mulher “moderna” – por falta de uma expressão melhor – outro dia me peguei pensando no final de uma comédia romântica: por que o amor não pode ser assim? Por que não podemos viver aquela corrida para o abraço, o beijo com trilha sonora, o pedido de casamento inusitado?

A resposta mais óbvia seria: porque a vida não é desse jeito; porque aquilo é ficção, é feito para mexer com a fantasia das pessoas e não para retratar a realidade. Eu tenho uma resposta melhor: mesmo se a vida fosse assim, e tenho certeza que algumas pessoas no mundo tiveram esse tipo de momento, não é disso que vive o amor.

O amor vive de miudezas. De gestos que quase passam desapercebidos no dia-a-dia. Como quando a outra pessoa nota que você está ficando doente e traz um remédio e um copo de água sem você pedir. Compra seu biscoito favorito. Pára no meio de um dia caótico no trabalho para te mandar uma mensagem. Guarda o melhor pedaço de pizza para você. Alegra-se com sua alegria. Fica do seu lado nos momentos que nem você gostaria de estar consigo mesmo.

Pelo menos é assim que eu enxergo. Para mim, essas pequenas grandes coisas são tijolinhos que vão construindo o amor numa relação. Não que no meio dela não possam haver “tijolões”, os tais “momentos de filme”. Mas poucos tijolos grandes sozinhos não são capazes de construir algo forte.

Da próxima vez que eu assistir a um filme e tiver de novo essa sensação boba de que o amor precisa de um grande gesto romântico para existir, não vou deixar Hollywood me enganar. Vou me lembrar que o amor precisa mesmo é de alguém que estica a coberta para te cobrir no meio da noite.

***

Quiche de abobrinha com polenguinho
Demora um pouquinho para ficar pronta, mas não vale dizer que fazer quiche é difícil. A receita pode ser usada como uma base para variar o recheio: já fiz com damasco e gorgonzola, linguiça calabresa, tomatinhos e manjericão…

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Ingredientes

Para a massa

- 150 gramas de manteiga sem sal, gelada e cortada em cubinhos
- 1 ovo gelado
- 2 1/2 xícaras de chá de farinha de trigo
- 1/4 de colher de chá de sal
- 1 a 2 colheres de sopa de água gelada

Para o recheio

- 4 ovos
- 1 xícara de chá de de creme de leite, de preferência fresco
- 1/2 xícara de leite integral
-  1 xícara de queijo minas ou emmental ralado
- 1 abobrinha italiana bem verde
- 6 polenguinhos
- sal, pimenta-do-reino e noz moscada à gosto

 

Como fazer

1. Para fazer a massa no processador, junte a farinha e o sal e pulse para misturar. Adicione a manteiga e continue pulsando, até que a massa fique parecendo uma farofa grossa: alguns pedaços de manteiga estarão do tamanho de ervilhas, outros maiores ou menores.

2. Coloque o ovo, bata rapidamente e em seguida derrame a água aos pouquinhos – pode ser que você não precise usar tudo. Nessa etapa, deixe bater por intervalos mais longos, até que se forme uma bola de massa no processador.

3. Se for fazer a massa com as mãos, misture a farinha com o sal, coloque a manteiga e vá esfarelando com as pontas dos dedos, até obter a consistência explicada acima. Coloque o ovo, misture rapidamente e coloque a água gelada aos poucos, trabalhando com as mãos o mínimo possível até conseguir uma bola de massa. Siga como explicado acima. Cuidado para não trabalhar demais, ou a massa ficará dura.

4. Entorne a massa na bancada, faça uma bola, amasse num formato de disco, embrulhe em filme plástico e leve à geladeira por no mínimo uma hora e no máximo um dia.

5. Enquanto a massa está na geladeira, prepare o recheio. Rale a abobrinha e transfira para uma peneira. Aperte com aos mãos para retirar o excesso de água. Numa vasinha, bata com um garfo ou um batedor de arames os ovos, o creme de leite e leite. Adiciones a abobrinha e o queijo, misture e tempere com sal, pimenta-do-reino e noz moscada ralada à gosto.

6. Para abrir a massa, tire da geladeira e trabalhe um pouco com as mãos para que ela perca o “gelado”. Faça novamente uma bola e achate com as mãos, formando um disco espesso. Enfarinhe a bancada e o rolo de massas e vá abrindo do centro da massa para as bordas, usando pouca força, até que a massa fique fina, com cerca de 3 mm. Alivie a pressão na borda para que ela não fique mais fina que o restante da massa. Não tem problema se não ficar redondinha: dá pra consertar na hora de colocar na forma.

8. Enrole a massa no rolo e transfira para a forma. Passe o rolo por cima das beiradas da forma para tirar as aparas e use-as para cobrir alguma fenda. Use os dedos para ajeitar a massa na forma e aperte contra o fundo e as laterais para forrar direitinho.

9. Leve a forma para a geladeira por 15 minutos. Enquanto isso, preaqueça o forno a 200 graus.

10. Para pré-assar a massa, estenda um pedaço de papel alumínio sobre ela e encha de feijões. Eles servirão como um peso impedirão a massa de inflar. Asse por 25 minutos ou até que fique levemente dourada. Retire do forno, tire o papel alumínio e guarde os feijões para a próxima torta ou quiche: como estão secos, não são bons para cozinhar.

11. Abaixe o forno para 180 graus. Espere a massa amornar e cubra com o recheio. Pique os polenguinhos e distribua-os por cima. Leve ao forno novamente por cerca de 30 minutos, até que o topo esteja dourado e uma faca saia sem recheio ao ser enfiada no meio da quiche. Sirva quente ou em temperatura ambiente.

 SAMSUNG

 

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Você já foi gentil hoje? + Chutney de ameixa fresca

Está rodando no facebook um texto que fala sobre o “café compartilhado” ou “café pendente”, uma prática que parece ter começado numa cafeteria em Praga e se espalhou pelo mundo. Nela, o cliente toma um café que foi pago por outra pessoa e pode também deixar pago um café para alguém. Os cafés pré-pagos vão sendo marcados em um quadro e distribuídos na medida em que as pessoas entram na cafeteria e pedem por eles. Já existe um local assim em São Paulo e lá, além de deixar a conta do café acertada, as pessoas também deixam bilhetinhos para quem for tomar a bebida doada.

Esse tipo de movimento me faz pensar que ser gentil não é algo tão difícil assim. Não precisa sempre partir de um esforço ou de um sacrifício. Pode ser leve, fácil e inclusive não envolver o contato direto com outra pessoa, apenas a vontade de fazer o dia de alguém um pouco melhor. Ainda assim, parece uma coisa cada vez mais rara. Sinto que hoje as pessoas sorriem menos depois de ouvir um “bom dia”. E tem tempos que ninguém me oferece carona no guarda-chuva quando sou pega desprevenida pela tempestade.

Se esse afastamento é fruto do medo, da insegurança, da tecnologia ou do capitalismo, eu sei lá. Mas sei que é preciso praticar mais o olhar para essas pequenas oportunidades de ser gentil. Não só com quem você não conhece, mas principalmente com quem está do seu lado, todos os dias.

Seja pagando o café para um estranho ou oferecendo uma massagem para sua amiga, a verdade é que todo tipo de gentileza possui uma força imensa. Talvez ela seja a atitude que nos torna mais humanos, já que não é uma obrigação moral ou uma convenção social. Tem como ponto de partida um sentimento muito valioso, que é o de identificação. E vem também um desejo básico: o de se conectar.

Chutney de ameixa fresca
O sabor doce/azedinho das ameixas é realçado nesse chutney, que fica uma delícia servido no pão mesmo e é perfeito também para acompanhar para costelinha ou lombo de porco.

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Ingredientes

- 4 ou 5 ameixas grandes (cerca de 350 gramas)
- 1 colher de sopa de azeite
- 1/2 cebola roxa média
- 1 dente de alho grande
- 1/4 de xícara de chá de açúcar mascavo (aperte na xícara para medir)
- 1/4 de xícara de chá de vinagre de maçã
- 1/4 de colher de chá de canela
- 1 colher de chá de gengibre fresco ralado
- 1/2 de colher de chá de cominho em pó
- 1/4 de colher de chá de pimenta-do-reino moída na hora
- 1/2 colher de chá de sal

Como fazer

1. Pique as ameixas em pedaços, mantendo a casca e descartando o caroço. Pique as cebolas e o alho bem picadinho.

2. Aqueça o azeite numa panela média em fogo alto. Adicione a cebola, mexendo de vez em quando até que fique macia, cerca de 2 minutos. Junte o alho e misture até perfumar.

3. Adicione a canela, o cominho e a pimenta. Misture rapidamente e coloque o restante dos ingredientes, menos o sal.

4. Tampe e deixe cozinhar por uns 8 minutos, mexendo de vez em quando. Tire a tampa e continue o cozimento até que a ameixa esteja bem macia e o líquido tenha engrossado, cerca de 25 minutos.

5. Adicione o sal, experimente para checar os temperos e faça algum ajuste se necessário. Deixe esfriar e sirva em temperatura ambiente.

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Filosofia de quinta e minialmôndegas com especiarias

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Outro dia vi um pedaço do programa da Nigella em que ela fazia almôndegas. Ultimamente, sempre que vejo ela na TV me pego pensando como deve ser fantástico ganhar dinheiro para falar e escrever sobre comida. Era isso que eu queria fazer. Não posso negar, no entanto, que já tive esse mesmo pensamento com relação a milhares de outras coisas: por um bom tempo achei que o melhor emprego do mundo era ser bailarina do Grupo Corpo. Já achei também que o dream job era trabalhar em projetos de preservação de tartarugas ou golfinhos. Durante a faculdade meu sonho era escrever roteiros de cinema…

Me chamem de volúvel, inconstante, instável – eu não ligo. Até já liguei: houve um tempo em que sentia uma pressão muito grande de “ter que saber o que eu quero fazer da minha vida”, mas hoje eu sei que não adianta perseguir a tal certeza absoluta, porque essa coisa de viver nunca é em linha reta. Hoje, acho que vale mais abraçar a vontade e o desejo daquele momento do que levar isso como uma decisão para o resto da vida.

A melhor parte de andar um caminho sem se preocupar quanto tempo vamos ficar nele é que não há pesar quando dá vontade de ir para outra estrada que parece mais interessante.

***

Minialmôndegas com especiarias
Usei essas almôndegas num curry de legumes, por isso quis dar um toque indiano no tempero. Ficou uma delícia e acho que é uma opção legal para servir como belisquete para os amigos, já que fica pronto rapidinho e todo mundo pode ajudar a fazer bolinhas…

SAMSUNG


Ingredientes

250 gramas de carne moída (gosto de usar patinho)
250 de linguiça de porco (retire o recheio da película e use uma faca afiada para deixar tudo bem picadinho)
1 ovo
1 dente de alho amassado
3 colheres de farinha de rosca
¼ de colher de chá de canela
¼ de colher de chá de noz moscada
¼ de colher de cominho em pó
½ colher de chá de curry em pó
Suco de meio limão pequeno
1 colher de chá de sal
Um pitada de pimenta caiena


Como fazer

1. Coloque todos os ingredientes em uma tigela grande. Misture com as mãos até que tudo fique bem combinado, mas sem trabalhar a massa de carne demais, ou as almôndegas ficarão duras.

2. Antes de formar as bolinhas, eu gosto de pegar um pouquinho da massa, enrolar e preparar numa frigideira aquecida com azeite. Assim dá para provar se os temperos estão bons ou se precisa de mais alguma coisa.

3. Forme bolinhas bem pequenas com a massa. Eu consegui fazer 60.

4. Na mesma frigideira que você testou a almôndega, aqueça uma colher de sopa de azeite no fogo alto. Coloque as bolinhas com espaço entre elas – vai ser preciso fazer isso em algumas levas. Não fique mexendo as almôndegas demais: deixe que dourem bem de um lado e depois vire-as com ajuda de um pegador. Vá fazendo isso até que estejam totalmente douradas.

5. Sirva quente ou em temperatura ambiente.

SAMSUNG

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Amor de torradas e de leite queimadinho

O primeiro trecho do livro “Toast”, de Nigel Slater, é assim: (tradução minha):

“Minha mãe está raspando um pedaço de torrada queimada da janela da cozinha; há uma ruga de irritação na sua testa. Essa não é uma ocorrência ocasional, algo que acontece de vez em quando no dia-a-dia apressado de uma mãe. Minha mãe queimar a torrada é tão certo quanto o sol nascer toda manhã. Aliás, duvido que ela já tenha feito uma leva de torradas na sua vida que não tenha enchido a cozinha de cinzas e fumaça. Eu tenho nove anos e nunca vi manteiga sem pedacinhos pretos nela.

É impossível não amar alguém que faz torradas para você. As falhas das pessoas, mesmo as grandes como quando elas fazem você usar calças curtas na escola, se tornam insignificantes quando seus dentes rompem uma casca dura e dourada e afundam na maciez e fofura do pão. Uma vez que a a manteiga salgada e quentinha atinge sua lingua, você está perdido. Está nas mãos delas.”

Além de ser um ótimo início de livro, esse pedaço me fisgou porque fala de um tipo de comida afetiva que não está ligada ao conhecimento ou gosto culinário de quem fez. É baseada no gesto, não no prato.

Assim como Nigel, também tenho lembranças da minha mãe fazendo torradas quando eu era criança. Eram feitas no forno e apenas no sábado de manhã. Ela cortava o pão de forma em quatro, espalhava um pouquinho de maionese, salpicava presunto e queijo ralado por cima e jogava um pouquinho de orégano. No forno, elas douravam e saíam com o queijo derretendo. Ninguém mais na minha casa gostava dessas torradinhas, só eu. Talvez por isso até elas fossem tão gostosas: um café da manhã exclusivo para mim.

Acho que as memórias mais queridas que tenho da minha mãe na cozinha são assim, de coisas simples, de gestos. Como o leite queimado que ela oferecia no frio. Aliás, o inverno era a época de nos oferecer duas coisas que eram sempre veementemente negadas: esse leite e sopa. O primeiro, convenhamos, não tinha um nome muito convidativo. A sopa é impopular até os dias de hoje.

Um dia vi ela fazendo o tal leite queimadinho. Numa panelinha, ela polvilhava açúcar e deixava ele lá paradinho por alguns minutos – até que de repente, como mágica, o açúcar sumia e dava lugar a um líquido dourado e e perfumado. O cheiro de caramelo invadia a cozinha e era seguido pelo som de “tchhhhiiii” do leite frio caindo por cima da calda âmbar. Depois de um tempo, o branco do leite virava bege e surgia um líquido maravilhoso. Quentinho, docinho, um tipo de sabor que não dá para esquecer.

É impossível não amar alguém que faz leite queimado para você.

***

Leite queimadinho
Parece engraçado dar uma receita dessa bebida, que em alguns lugares é conhecida como “queimadinha”, pois ela é muito simples. Ainda assim, acho que tem alguns segredinhos, por isso resolvi postar. Se você nunca provou, pare o que está fazendo e vá para a cozinha agora.

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Rendimento: 1 xícara


Ingredientes

- 2 colheres de sopa de açúcar (pode ser cristal, refinado, mascavo, demerara…)
- 1 xícara de chá (240 ml) de leite
- 1 canela em pau (opcional)

Como fazer

1. Coloque a leiteira na menor tremp do fogão e polvilhe o açúcar no fundo. Ligue o fogo baixo e não mexa mais – espere até que o açúcar derreta e vire caramelo (mexer com a colher pode fazer empedrar). Eu gosto de deixar até fique num tom de dourado escuro, mas se você nunca fez caramelo, para não correr o risco de queimar é mais seguro deixar até uma cor âmbar. Se perceber que os cantos estão escurecendo mais rápido que o centro, segure a leiteira pela alça e faça movimentos circulares para ajudar o açúcar a espalhar.

2. Entorne o leite de uma vez, com cuidado. Se tiver usando a canela, adicione nesse momento. O caramelo irá endurecer, mas não tem problema. A medida em que o leite esquenta, tudo vai se misturar. Aguarde alguns segundos e vá mexendo com uma colher. Assim que o leite ferver, desligue. Sirva quentinho.

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Luvas parisienses e brioche

Minha mãe viajou no final do ano passado e sua mala foi extraviada. Nunca mais apareceu. Eu, do lado de cá, fiquei muito preocupada, pensando em como ela ia se virar por 30 dias sem suas coisas. Ela, do lado de lá, lidou muito bem com o acontecido, fez piada e seguiu a vida.

Essa semana, de repente, me lembrei de uma coisa minha que estava na mala dela. Meu par de luvas de couro pretas. Me deu um aperto no coração, seguido do pensamento “por que estou chateada? Eram só luvas”. E e eu não tinha nem o direito de ficar triste pelas luvas, afinal, minha mãe tinha perdido uma mala inteira.

Mas todo mundo sabe que coisas nem sempre são SÓ coisas. São também histórias, lembranças. Têm outros tipos de valores atrelados a elas. Essas luvas, no caso, eu usei quando estive pela primeira vez em Paris. Foram empréstimo de uma amiga que estava me hospedando lá e eu acabei esquecendo de devolver. Esse esquecimento me salvou durante o resto da viagem, já que não havia levado nada para proteger as mãos e houve dias inesperados de frio.

Também tenho toda uma história com luvas, não sei por quê. Gosto de usá-las desde criança. Já fiz minha mãe costurar um par de luvas de renda branca (tipo as da Maria Joaquina em Carrossel, alguém lembra?) e usei na escola na manhã seguinte (sim, fui alvo de bullying no dia – talvez merecido). Adorava quando tinha luvas nos meus figurinos do balé. Depois de adulta e na vida “real”, no entanto, minhas primeiras luvas foram aquelas em Paris.

Mesmo com todo esse cenário, ainda fico pensando: eram apenas luvas. Por que deixei que se tornassem importantes?

Talvez porque as coisas – e por coisas quero dizer uma blusa, um anel, uma bicicleta – passam a impressão de permanência. Você vai no museu e as coisas estão lá, o telefone do séc. XIX, o quadro da Monalisa. Coisas que viveram mais que seus donos. Quadros que vivem muito mais que seus pintores. E daí parece menos arriscado se apegar a elas. Só quando elas quebram, estragam, somem ou se perdem e que lembramos que coisas também são efêmeras.

O bom é que, diferente de perder pessoas ou relações, o elo que temos com as coisas são – ou deveriam ser – bem mais fracos. Tenho certeza que daqui pouco tempo já esqueci das luvas. Aliás, nota mental: não me apegar tanto ao próximo par.

***

Brioche

A história das luvas me fez lembrar de Paris, e para matar um pouco a saudade,resolvi fazer brioche. Não é à toa que esse pão está intimamente ligado à história da monarquia francesa: é um pão bem rico, pois leva vários ovos e muita manteiga. Existe uma forma de fazê-lo à mão, usando uma colher de pau grande para fazer a mistura, mas eu achei que seria difícil porque a massa é pesada. Eu fiz no multiprocessador, mas aviso: se a jarra for pequena, melhor fazer de duas levas. O ideal mesmo é usar uma batedeira que tem a peça de pás para bater pão. Não dá para explicar o tanto que esse pão quentinho com geleia é bom: você tem que experimentar.

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Rendimento: um pão grande ou dois médios

Receita do Peter Reinhart

Ingredientes

Para a esponja:
- 1/2 xícara de farinha de trigo
- 2 colheres de chá de fermento biológico em pó instantâneo
- 1/2 colher de leite morno (é morno mesmo, ou seja, é confortável encostar o dedo. Se estiver quente, matará o fermento)

Para a massa:
- 6 ovos grandes, ligeiramente batidos
- 3 xícaras de farinha de trigo
- 2 colheres de sopa de açúcar
- 1 1/4 de colher de chá de sal
- 200 gramas de manteiga sem sal em temperatura ambiente

- 1 ovo ligeiramente batido com um pouco de água para pincelar

Como fazer

1. Numa recipiente médio, misture a farinha, o açúcar e o sal.

2. Na tigela da batedeira ou no copo do processador, misture a farinha e o fermento. Adicione o leite e bata um pouco em velocidade baixa apenas para misturar. Cubra a tigela (ou coloque a tampa do processador) e deixe a esponja fermentar de 30 a 45 minutos, ou até que tenha crescido e criado bolhas na superfície.

2. Com a batedeira ligada na velocidade baixa ou usando o botão de pulsar do processador, adicione os ovos, um por um, esperando até que se misturem à massa. Coloque então os ingredientes secos em três adições e continue batendo (ou pulsando) até que a massa fique homogênea. Nesse ponto, deixe a massa descansar por 5 minutos para que o glúten comece a de desenvolver.

3. Mantenha a batedeira na velocidade baixa ou ligue o processador na velocidade mais baixa. Adicione a manteiga em quatro partes, esperando que cada pedaço seja totalmente absorvido pela massa antes de adicionar o próximo. Essa etapa vai levar alguns minutos, é preciso paciência. A massa vai ficar pegajosa e pode ser que grude nas laterais – se isso acontecer, use uma espátula para ajudar a desgrudar.

4. Depois de toda a manteiga adicionada, continue batendo por uns dois ou três minutos. A massa fica bem macia, mais firme que a de um bolo, mas mais mole do que um pão tradicional. Forre o fundo de uma assadeira de laterais altas com papel manteiga e unte com azeite. Coloque a massa por cima e use uma espátula para ajeitá-la, formando um retângulo de mais ou menos 25cm X 15cm. Cubra bem com papel filme e leve imediatamente à geladeira por pelo menos 4 horas, ou de um dia para o outro.

5. Na hora de assar, unte uma forma de pão grande ou duas médias. Retire a massa de geladeira e, enquanto está gelada, faça um rolo do tamanho da forma que for usar. Transfira para a forma e use as mãos para ajeitar. Cubra levemente com papel filme e deixe fermentar por cerca de 2 horas, até que dobre de tamanho. Quando faltar 20 minutos para terminar a fermentação, preaqueça o forno a 180 graus.

6. Pincele levemente o ovo batido por cima do pão e leve para assar por cerca de 30 minutos, ou até que o topo esteja dourado e o pão faça um som oco ao ser batido com a mão. Espere amornar, desenforme e sirva em fatias.

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Em outros carnavais + Patê de milho gratinado

Dos primeiros que me lembro, o que importava era a fantasia. Fui palhaça, bailarina, bruxa. Mais do que tudo queria ser odalisca; usar aquela calça larga de cetim e pulseiras que batiam umas nas outras, mas não deu. Ia no baile de matinê do clube e tinha medo das máscaras de monstros.

Na quase adolescência, minha calça bailarina rosa-bebê dançou atrás do seu primeiro trio elétrico e sentiu olhares maliciosos que não haviam antes. Cantou “me abraça, me beija, me chama de meu amor” e foi dormir quase com o sol nascendo. Para quem não tinha Salvador, Congonhas era o máximo.

Quando comecei a perceber um outro lado do Carnaval, dos excessos e micaretas de beijos forçados, a diversão se perdeu. Fiquei avessa à folia. Comecei a usar o período para ficar em casa, à toa. Entediada. Gostava de ver triologias – a do Poderoso Chefão foi a primeira. Fazia bolo de camadas. Aproveitava que Belo Horizonte não tinha nenhum agito e curtia as ruas vazias…

Hoje não tenho mais amor nem ódio pelo Carnaval, mas ficou uma saudade desses dois tempos: da fantasia se ser fada ou de morar quatro dias numa cidade silenciosa – coisa do passado agora que BH decidiu que tem Carnaval de rua. Indecisa se fico no bloco ou sofá, assumo que curto um batuque, cantar “tetereterê”, mas queria também um cinema vazio…

***

Patê de milho gratinado
Esse petisco é perfeito para comer com os amigos, fica pronto rapidinho e surpreende com o toque apimentado.

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Rende duas tigelinhas

Ingredientes

- 2 colheres de sopa de manteiga, divididas
- 2 latas de milho escorrido
- ½ colher de chá de sal
- ½ pimentão vermelho sem sementes picadinho
- 1 cebola pequena picada
- ¼ de xícara de chá de cebolinha picada
- 1 dente de alho picado
- ½ xícara de maionese
- Pitada de pimenta calabresa
- Pitada de pimenta-do-reino
- 100 gramas de queijo prato
- 100 gramas de muçarela

Como fazer
1. Pré-aqueça o forno a 200 graus.

2. Derreta uma colher de manteiga numa frigideira e adicione o milho, o sal e o pimentão picado. Vá mexendo até que o milho começa a tostar – ele vai pular da panela como se fosse pipoca. Coloque essa mistura num tigela e volte com a frigideira para o fogo.

3. Derreta o restante da manteiga e refogue a cebola picada até que fique transparente. Junte a cebolinha e o alho e cozinhe por mais dois minutos. Depois de pronto, ponha na mesma tigela com o milho.

4. Adicione a maionese, metade do queijo prato, metade da muçarela, a pimenta-do-reino e a pimenta-calabresa. Misture bem e prove para acertar os temperos.

5. Distribua o patê no recipiente que for servir e salpique o restante dos queijos por cima. Leve ao forno até que esteja borbulhando e dourado por cima, cerca de 20 minutos. Sirva com torradinhas de pão.

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Atenção para a desanteção + Mini-canelones de espinafre

Eu sou lerda. Não no sentido de ser lenta, e sim de que me distraio facilmente.

Com o passar do tempo, aprendi que a melhor maneira de contornar isso é procurar fazer todas as minhas atividades, ou pelo menos aquelas importantes, de forma muito concentrada. Na cozinha, se não estiver totalmente focada na receita, é certo que vou perder a contagem das xícaras de farinha ou esquecer de por o fermento. Se na hora de sair de casa não faço uma lista mental, algo sempre fica para trás. Também sou uma dependente incurável de lembretes de celular.

Outro aspecto dessa minha lerdeza é que frequentemente tenho a sensação de que estou fazendo uma coisa, mas deveria estar fazendo outra. Se estou no computador lendo um texto, logo perco a concentração naquilo e acho que preciso varrer a casa. Se vou varrer a casa, começo a pensar que deveria ir fazer almoço. Dessas coisas pequenas o pensamento evolui para questões maiores também, de sentir que o que estou fazendo na vida não é suficiente, não é importante, deveria ser outra coisa.

Hoje li um trecho de um texto sem querer, folheando livros no sebo, que falava exatamente sobre essa dificuldade de estar atento ao mundo. O trecho dizia que existe uma diferença entre estar atento e estar concentrado. Que a atenção tem algo de entrega, de completude. Permite que estejamos atentos até quando estamos desatentos. Será que é mesmo possível?

O tal trecho é esse aí embaixo. É do livro “A Humanidade Pode Mudar?”, de Jiddu Krishnamurti. O autor é um filósofo indiano e nesse livro responde perguntas feitas por estudiosos do budismo.

- Sinto que minha vida diária não tem importância, que eu deveria estar fazendo algo diferente. Por quê?

- Quando estiver comendo, coma. Quando sair para um passeio, ande. Não diga “eu deveria estar fazendo algo diferente”. Quando estiver lendo, dê a isso a sua atenção completa, seja um romance policial, uma revista, a Bíblia, seja o que for. Atenção completa é atenção completa e, portanto, não há essa de “eu deveria estar fazendo algo diferente”. Só quando estamos desatentos é que surge o sentimento de “pelo amor de Deus, eu tenho de fazer alguma coisa melhor”. Se dá atenção completa quando está comendo, isso é ação. O importante não é o que fazemos, mas se podemos dar a isso total atenção. Por atenção, não quero dizer algo que aprendemos através de concentração na escola ou na empresa, mas observar com nosso corpo, nossos nervos, nossa visão, nossos ouvidos, nossa mente, nosso coração – inteiramente. Se fizermos isso, haverá uma mudança enorme em nossa vida. Algo exigirá toda nossa energia, vitalidade, atenção. A vida exige essa atenção a todo minuto, mas fomos tão treinados em desatenção que procuramos sempre escapar da atenção para a desatenção. Dizemos “como é que vou observar? Eu sou preguiçoso”. Seja preguiçoso, mas totalmente atento à preguiça. Seja totalmente atento à desatenção. Saiba que está totalmente desatento. E quando souber que está inteiramente atento à desatenção, estará atento.

Um dia eu chego lá.

***

Mini-canelones de espinafre
Já pensou em fazer massa para servir como petisco numa festa? Vi essa ideia num grupo sobre cozinha muito legal que participo no Facebook e gostei bastante do resultado. Você pode variar os molhos e recheios e decidir se quer ou não servir com molho à parte.

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Rendimento: 20 ou 40 rolinhos, dependendo do tamanho que você quiser

Ingredientes

- 10 folhas de lasanha
- ½ maço de espinafre limpo e picado grosseiramente
- ½ colher de sopa de azeite
- 1 dente de alho picado
- 200 gramas de creme de ricota
- 5 colheres de sopa de parmesão ralado na hora
- Sal, pimenta-do-reino e noz moscada à gosto
- Molho de tomates de sua preferência (eu fiz esse aqui)
- Queijo ralado e folhas de manjericão para finalizar

Como fazer

1. Coloque uma panela grande com água no fogo algo. Quando ferver, salgue generosamente e coloque as folhas de lasanha para cozinhar de acordo com o tempo indicado no pacote.

2. Enquanto isso, em fogo médio, refogue o alho no azeite até perfumar. Junte espinafre e misture até que as folhas murchem e comecem a soltar líquido. Escorra a água e deixe o espinafre esfriar.

3. Misture o creme de ricota ao espinafre frio. Junte o parmesão e depois tempere com sal, pimenta-do-reino e noz moscada.

4. Estenda dois panos de prato limpos na mesa ou bancada da cozinha. Quando der o tempo de cozimento das folhas de lasanha, escorra a massa e rapidamente alinhe-as uma do lado da outra sobre o pano. É preciso fazer isso rápido ou elas irão grudar umas nas outras. O pano servirá para absorver o resto de umidade.

5. Corte a folha de lasanha ao meio. A minha folha era comprida e estreita, então só precisei cortar ao meio no sentido do comprimento. Na verdade você pode deixar do tamanho que preferir. Espalhe o recheio tomando cuidado para não preencher demais nas laterais e nas pontas, o que vai facilitar na hora de enrolar.

6. Pegue uma das pontas e comece a enrolar. Se achar que ainda assim está grande, como eu achei, parta o rolinho no meio. Use um palito para fixar o mini-canelone no lugar.

7. Depois de todos prontos, pré-aqueça o forno a 200 graus. Unte uma assadeira levemente e disponha-os em fileiras. Coloque uma colherinha de molho sobre cada um, um pouco de queijo ralado e uma folhinha de manjericão. Leve ao forno por cerca de 15 minutos, até que o queijo esteja bem derretido. Se quiser, sirva com molho de tomates à parte.

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