Meu irmão e seus bolinhos de chuva

Na estante enorme, de madeira escura, havia um canto com várias garrafas. Uma delas, de vidro verde e rótulo prateado, chamava e atenção – um licor de menta, sabe-se lá de quando, já pela metade. Afastando a franja do olho, ele subia na ponta do pé e, com a destreza que uma criança de 4 anos não deveria ter, virava a garrafa com cuidado até que o líquido molhava a ponta do dedo indicador. Depois de lamber com satisfação, voltava a garrafa para o lugar – ou quase para o lugar: além do braço curto não conseguir empurrar a bebida para o canto original, talvez fosse mesmo mais estratégico deixá-la ali, um pouco mais próxima da beirada. O que também me beneficiava, já que aprendi com ele a gostar desse sabor de bala de hortelã nos dedos.

Na padaria, enquanto esperava minha mãe pagar o pão, ele se agachava e estendia o braço por debaixo do balcão de vidro, onde ficavam dispostas as balas, como quem tivesse perdido algo. O danado aprendeu que quando as atendentes tiravam os doces a pedido dos clientes, alguns caíam e ficavam escondidos embaixo da última prateleira. Assim ele voltava para casa com babalus, dadinhos e balas chita de brinde.

Para ele, batata frita com sorvete de baunilha era uma combinação incrível. E creme dental Tandy sabor tutti-frutti era balinha líquida.

De  todas as lembranças  pitorescas envolvendo comida que tenho do meu irmão, fica uma nada estranha, mas muito tenra: os bolinhos de chuva. Feitos pela “vó Geralda”, que não era avó de sangue e sim de coração, eles eventualmente começaram a ser repetidos por minha mãe, nos sítios em que passávamos longos fins de semanas. Em algum momento do dia meu irmão sempre pedia esse bolinho.

Engraçado pensar que a adoração que sentia pelo bolinho de chuva não era compartilhada com a chuva em si: sempre teve muito medo de tempestades, principalmente as cheias de raios e trovões. Lá pelos seus 6 anos enfrentamos uma dessas em casa, sozinhos – e além de tudo a luz acabou. Me lembro de nós dois sentados no sofá, no escuro, no silêncio; ele tentando disfarçar seu medo e eu escondendo minha preocupação.

O tempo passou, o gosto do Tandy não parece mais tão genial e  existem bebidas bem melhores do que licor de menta. Mas acho que ele ainda gosta do tal bolinho… (e ainda tem medo de trovão, mas não fui eu quem contei).

***
Bolinhos de chuva
Com casquinha crocante e interior macio, esses bolinhos ficam uma delícia com geleia ou doce de leite, mas também são ótimos do jeito simples. Duas coisas são essenciais para o sucesso deles: fritar quantidades pequenas de massa e no fogo bem baixo, para que não fiquem crus por dentro.

Ingredientes

– 1 ovo
– 3 colheres de açúcar
– 1 colher de sopa de manteiga derretida
– ½ xícara de chá de leite
– 1 pitada generosa de sal
– 1 xícara de farinha de trigo
– ½ colher de sopa de fermento químico em pó
– Óleo para fritar e açúcar refinado para polvilhar

Como faz

1. Numa tigela, use uma colher de pau ou um batedor de arame para bater o ovo e o açúcar até que virem uma mistura clarinha. Junte a manteiga derretida, o leite e o sal e misture mais um pouco.

2. Adicione a farinha de trigo aos poucos, mexendo até que ela se incorpore totalmente e a massa fique lisa, parecendo uma massa grossa de bolo. Por último, misture o fermento.

3. Deixe a massa descansar por cerca de 15 minutos. Na hora de fritar, coloque óleo até a metade de uma panela média e deixe que esquente no fogo baixo. Para saber o ponto do óleo, encoste a parte de madeira de um palito de fósforo (ou o cabo de um colher de pau) no fundo da panela. Se subirem bolhas em volta, é porque está bom.

4. Dê forma aos bolinhos usando duas colheres com uma quantidade pequena de massa, como no vídeo abaixo (está improvisado, mas acho que dá para entender. No caso, eu deixei a massa cair num pires para a visualização ficar melhor, mas é assim que os bolinhos devem ser colocados no óleo).

5. Depois de colocar três ou quatro porções de massa no óleo, vá virando-os com uma escumadeira para que fritem por igual. O óleo nunca pode estar muito quente, senão eles ficam crus por dentro. Devem fritar devagar mesmo. Por isso, eu prefiro desligar um pouco o fogo entre uma leva e outra para manter o óleo na temperatura certa.

6. Depois de bem dourados, escorra-os e coloque-os num prato com papel toalha. Polvilhe açúcar refinado por cima e sirva-os ainda quentes.

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5 Resultados

  1. Déa Lúcia disse:

    Esse bolinho tambem faz parte da minha infância, porque era necessário ser criativo para enfrentar a chuva que não deixava a gente brincar na terra. A terra virava lama e a gente fazia bolinho de chuva de puro tédio. Aprendi a usar as mãos buscando conforto nos nossos bolinhos. Vivendo….,Eses são os meus preferidos, tem gosto de mãe. bjus

  2. Maria disse:

    Adorei o texto e as memórias. E os bolinhos estão lindos! Tenho muito treino pela frente. 😉

  3. Nara Viana disse:

    Que redondinhos!!! Os meus não ficam tão perfeitinhos…
    Bolinho de chuva é bom demais!!!

    Ah, eu tb adorava Tandy!!! haha

    bjo

    • marina maria disse:

      Quem não amava Tandy, né, Nara??? =)

      Os bolinhos ficam redondinhos de tanto treinar, foi preciso quase uma receita de massa inteira até eles ficarem assim…. rsrs

      Beijoca!

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