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Dedicatórias + Pão de forma de coalhada

Todo livro tem dois tipos diferente de história. Tem a história que o autor escreveu e tem a história de como ele surgiu na prateleira da pessoa. E o significado de um livro para alguém acaba sendo a junção dessas duas coisas. Quando olho para minha estante ou folheio minha coleção, não me lembro apenas de enredos, mas também de pessoas queridas, aniversários, tristezas. Dos livros que comprei, muitas vezes me lembro até do exato momento em que paguei por ele: o que estava sentindo, porque queria aquele livro, em que loja estava.

Às vezes o objeto-livro conta sua história de forma física mesmo, com anotações, desenhos ou bilhetes que encontramos dentro deles. Dentro de um livro de receitas antigo da minha avó, encontrei um recorte de um jornal que falava sobre O Diário de Anne Frank, que tinha acabado de ser publicado – o jornal era de 1952. Fico pensando como era para minha avó ter vivido em um tempo em que o mundo estava em guerra….

Outras vezes, é a dedicatória que revela muito sobre a história do livro e, consequentemente, do leitor.

Eu adoro ler dedicatórias nos livros dos outros, mas sempre o faço com um pouco de constrangimento, como se estivesse presenciando uma troca muito íntima de intenções. Ao mesmo tempo, acho quase irresistível ler sobre a história daquele objeto. Talvez por isso eu goste tanto do blog “Eu te dedico”. Talvez também por isso eu tenha comprado um livro de fotografia que nem é tão bom, mas veio com a seguinte dedicatória:

“Dear Pam,

I hope you know what you’re getting yourself into. But in case in don’t, don’t worry: I’m here for you.

Love,

Dad”.

É possível amar um livro mais pela história que ele tem do que pela história contida nas páginas.

***
Pão de forma de coalhada
Com miolo mais denso e sabor mais leve, quase neutro, esse é o pão perfeito para fazer sanduíches. Além disso demanda pouca sova – meus braços agradeceram!

Adaptado daqui.

Ingredientes

- 125ml de coalhada fresca (comprei a minha num mercado de produtos árabes, mas já vi vendendo em supermercados, normalmente na sessão de iogurtes)
- 100 ml de água fervente
- 150ml de água fria
- 2 colheres de chá de sal
- 2 colheres de chá de açúcar
- 2 e ¼ de colher de chá de fermento biológico seco instantâneo
- 550 gramas de farinha de trigo

Como fazer

1. Numa tigela grande, misture a coalhada, a água fervente e a água fria. Adicione o sal, o açúcar e o fermento. Adicione a farinha aos poucos, mexendo primeiro com uma colher de pau, depois com as mãos, até formar uma bola. Tampe com um pano de prato e deixe descansar por 10 minutos.

2. Retire a bola da tigela, espalhe um pouquinho de óleo ou azeite numa superfície lisa e sove a massa por 10 segundos. Retorne a massa para a tigela, cubra e deixe por 10 minutos. Repita esse mesmo processo de sova rápida e descanso por mais duas vezes. Depois deixe a massa crescendo por uma hora.

3. Unte uma forma de bolo inglês média e cubra o fundo com um retângulo de papel manteiga, untando também por cima do papel. Retire a massa da tigela e abra com as mãos até formar um retângulo de uns 2cm de diâmetro. Enrole a massa como um rocambole e vire as pontas para baixo, selando-as. Coloque a massa na forma preparada com a fenda para baixo e aperte levemente com as mãos para que ele tome o formato da forma.

4. Deixe a massa crescer na forma por mais 60/90 minutos, até dobrar de tamanho.

5. Pré-aqueça o forno a 200 graus. Asse o pão até que o topo esteja bem dourado, cerca de 45 minutos.

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Desprender-se + Pão da Pousada do Caju

Às vezes, nem que seja por uma vez só, é preciso tomar café da manhã às duas da tarde, andar de bicicleta de madrugada e acordar às seis da matina – não por causa do alarme que mandou levantar cedo, mas porque você queria ver o sol nascer. É preciso assistir ao sol nascer. Ver sua bolinha laranja surgir de um lado e depois se pôr do outro, na direção oposta de onde a lua aparece, para perceber efetivamente o que significa o passar do dia, esse que normalmente decorre enquanto estamos dentro de escritórios com luzes brancas e cercados de prédios.

É bom não ter que se preocupar com o seu cabelo. Apenas lavá-lo e deixá-lo ser. Não usar maquiagem, nem creme para rugas. E não como se fosse um esforço, mas simplesmente por deixar pra lá. Deixar pra lá também a preocupação com o corpo, com espelhos e roupas que combinam.

Estar em um lugar onde dá para perceber a diferença entre som e barulho. Ouvir o vento e passarinhos no lugar de sirenes e britadeiras.

É preciso desligar o pensamento em calorias, gordura saturada, colesterol, e apenas comer o que é gostoso, o que dá vontade. Repetir o mesmo prato todo almoço. Trocar os drinks da moda por uma simples batida, daquelas que vendiam na praia quando éramos criança e ainda tem o mesmo gosto doce e delicioso.

Quando todas essas pequenas coisas que nos prendem ficam para trás, e você está apenas sentado diante de uma lua cheia tão brilhante que ilumina a grama feito farol, dá para entender como sentir-se livre é o maior luxo que se pode ter.

***

Pão da Pousada do Caju
O paraíso existe e o nome dele é Praia do Toque, em São Miguel dos Milagres – AL. Quando estive lá, hospedada na incrível Pousada do Caju, comi esse pão todos os dias no café e no jantar, com uma manteiga muito amarela e muito deliciosa. Eu alterei um pouquinho as quantidades e o modo de preparo (mania de cozinheira), mas mantive a essência do pão. Agradeço ao José Carlos e ao Alírio, os donos super simpáticos da pousada, por terem me cedido a receita!

Rendimento: 2 pães de 28 cm X 7 cm

Ingredientes

- 2 ovos
- ½ xícara de leite
- ¼ xícara de óleo
- 1 e ½  colher de sopa de açúcar
- ½ colher de sopa de sal
- 5 gramas de fermento biológico seco (1/2 colher de sopa ou ½ pacotinho)
- ⅔ de xícara de água morna (é morna, não quente, senão mata o fermento. Deve estar tépida, ou seja, é possível colocar o dedo e manter por alguns segundos sem desconforto)
- 750 gramas de farinha (aproximadamente – pode variar de acordo com o clima ou o tipo de farinha)

Como fazer

1. Bata no liquidificador por um minuto os ovos, o leite,  óleo, o açúcar e o sal. Despeje numa tigela grande.

2. Acrescente o fermento e a água morna. Misture e comece a acrescentar a farinha aos poucos, usando uma colher grande para incorporar.

3. Assim que virar uma massa possível de ser trabalhada, despeje numa superfície limpa enfarinhada e sove por cerca de 5 minutos. Acrescente mais farinha se necessário, mas com cuidado para que não fique ressecado. A massa deve ficar lisa, macia e desgrudando das mãos, porém ainda úmida, colando nas mãos como um durex velho.

4. Volte com a massa para a tigela, cubra com um pano limpo e deixe num lugar quente da cozinha, fermentando até que dobre o tamanho (cerca de uma hora).

5. Dê alguns soquinhos para tirar o ar da massa e divida em duas. Acomode cada pedaço em um forma de bolo inglês untada e enfarinhada ou dê o formato desejado e coloque numa assadeira untada. Cubra novamente com o pano e deixe fermentar por mais meia hora.

6. Pré-aqueça o forno a 200 graus. Asse os pães por cerca de 25 minutos ou até que estejam dourados no topo.


Dica
Dependendo da temperatura do dia, o pão pode demorar mais para fermentar. Em dias mais frios, eu gosto de acender o forno na temperatura máxima por 2 minutos. Desligo e coloco a massa lá dentro pelo tempo indicado. Na segunda fermentação eu sigo o mesmo processo. Isso ajuda a acelerar um pouco o processo.

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Pequenas alegrias + Pãozinho de cebola

Sabe quando você pega aquela calça velha, enfia a mão no bolso e encontra 20 reais? Ou quando chega em casa morto de cansado e lembra que tem mousse de chocolate na geladeira?

Hoje tive uma pequena grande alegria assim, quando esbarrei com esse poema. Achei tão, mas tão lindo, e tão singelo, que não estava cabendo em mim. Eu precisava dividir com alguém…

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos

*Manoel de Barros, no livro Exercícios de ser criança

***

Pãezinhos de cebola
Cada dia que passa percebo o quanto vale a pena fazer pão em casa. Essa receita rende muito, o que significa que você pode presentear amigos e familiares ou então congelar o pão depois de pronto: embrulhe cada um em papel filme e depois coloque num desses saquinhos tipo “ziplock”. Na hora de comer, é só esperar descongelar, pincelar um pouquinho de água e aquecer no forno.

Levemente adaptado daqui

Rendimento: de 35 a 40 pãezinhos

Ingredientes
- 2 ovos + 1 gema para pincelar
- ¾ de xícara de óleo de canola, girassol ou milho
- 1 colher de chá de sal
- 1 colher de sopa de açúcar
- 1 e ½ xícara de água morna
- 2 cebolas médias (ou uma bem grande) picadas grosseiramente
- 10 gramas de fermento biológico seco instantâneo
- Cerca de 1 kg de farinha de trigo

Como fazer
1. Bata no liquidificador todos os ingredientes, menos a farinha. Na hora de colocar a água morna, tome cuidado para que esteja morna mesmo: se estiver quente demais, matará o fermento.

2. Derrame essa mistura numa vasilha grande e vá adicionando a farinha aos poucos, misturando com uma colher de pau. Quando sentir que a massa tomou forma a ponto de poder ser sovada, coloque-a numa superfície limpa, seca e lisa, polvilhe um pouco de farinha e trabalhe com ela por cerca de 10 minutos, adicionando mais farinha quando necessário. A massa não deve ficar nem grudenda, nem seca, e sim úmida, colando um pouco na mão.

3. Faça uma bola com a massa e unte com um pouco de óleo. Volte com ela para a vasilha e cubra bem com um filme plástico ou com um pano seco, deixando descansar por cerca de uma hora, até que dobre o volume. Esse tempo pode ser maior ou menor, dependendo do clima no dia. Quando está muito frio, eu costumo ligar o forno na temperatura baixa, deixar esquentar por alguns minutos, desligar e colocar a tigela lá dentro.

4. Depois dessa primeira fermentação, soque a massa para tirar o ar e molde bolinhas, dispondo-as numa superfície lisa. Coloque um pano de prato úmido por cima e deixe de 10 a 20 minutos.

5. Unte e enfarinhe levemente uma assadeira grande ou duas médias. Amasse levemente e modele de novo as bolinhas de massa, dispondo-as na forma com um pequeno espaço entre elas (cerca de 0,5 cm). Cubra novamente com filme plástico (deixe ele um pouco frouxo) e descanse por mais 30 minutos, até que as bolinhas crescam um pouco.

6. Pincele os pães com uma gema misturada com um pouquinho de água e leve ao forno pré-aquecido a 180 graus por cerca de 40 minutos, até estarem dourados. Espere a forma esfriar, vire os pães numa superfície limpa e destaque-os. Guarde por três dias em sacos plásticos ou na geladeira por uma semana.

 

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Sopro do tempo + Pão italiano integral

Dizem: “o tempo passa”. E penso, não é bem que ele passa. Se apenas passasse, seu desenrolar seria como uma caminhada despretensiosa no parque. Em vez disso, acho que ele assopra. Tira tudo da frente, espalha e embola, nos obrigando a organizar o trajeto das coisas e aceitar que nem todas elas resistirão à ventania do relógio.

Talvez houve uma época e um lugar onde o tempo apenas passasse. Numa ilha deserta, tenho certeza que desfila. Aqui, no meu mundo, seu suspiro está sempre me enganando: quando acho que entendi seu ritmo e descobri como agarrar tudo aquilo que passa voando, meus dez minutos acabam. E certas coisas ficam para trás. Ou então são jogadas para frente, como aquela folhinha que tentamos pegar no chão e no segundo que as mãos a alcançam, o vento sopra longe para outro lugar…

“O let not Time deceive you,
You cannot conquer Time.”
W. H. Auden no poema “As I Walked Out One Evening”

***
Pão italiano integral
A ideia desse pão surgiu depois de uma conversa na página do Sal de Bolinha com o Léo, que queria uma receita de pão italiano. Escolhi testar essa e mesmo não ter crescido tanto (estava frio e meu fermento estava mais pra lá do que pra cá), ficou bem gostoso. O miolo macio e denso com casca crocante é ideal para pegar aquele resto de molho que fica no fundo do prato de massa.

Quase nada adaptado daqui
Rendimento: Um pão de 600 gramas ou dois de 300 gramas

Ingredientes
- 225 ml de água morna (1 xícara menos ½ colher de sopa)
- 3 gramas de fermento biológico seco instantâneo (1 colher de chá)
- 160 gramas de farinha integral (1 + ¼ de xícara)
- 215 de farinha de trigo para pães ou comum (1 xícara + ¾ de xícara + ½ colher de sopa)
- 7 gramas de sal (1 + ½ colher de chá)
- 2 gramas de açúcar cristal (1/2 colher de chá)

Como fazer

1. Misture o açúcar e o fermento na água morna (lembrando que tem que ser morna, e não quente, senão matará o fermento). Deixe descansar por cerca de 10 minutos, até que surjam bolhas na superfície.

2. Numa tigela grande, junte o fermento aos outros ingredientes e misture até formar uma massa coesa. Transfira-a para uma superfície lisa polvilhada com pouquíssima farinha (para mim nem foi necessário polvilhar). Sove bem a massa por uns dez minutos, até que fique macia. Ela permanece úmida, pregando um pouquinho na mão, como um durex velho.

3. Forme uma bola com a massa e volte com ela para a tigela. Cubra com um pano de prato limpo e deixe num local seco crescendo por 1h30 se o dia estiver quente (27ºC) ou 2h se o dia estiver frio (24ºC ou menos).

4.Afunde a massa com os punhos para tirar o ar e traga aos pontas para dentro, formando uma bola de novo. Deixe descansar por 5 minutos. Se for fazer dois pães, divida a massa. Dê o formato desejado para cada pedaço ou para o pão inteiro, certificando-se que esteja bem selado, sem fendas visíveis.

5. Coloque o pão (ou pães) em uma assadeira polvilhada com farinha de milho e deixe descansar coberto por um pano até que dobre de volume (de 30 a 60 minutos). Depois desse tempo, pré-aqueça o forno a 220 graus e coloque uma chaleira de água para ferver. Pincele o pão com água e faça alguns cortes diagonais ou um único no sentido do comprimento.

6. Disponha uma assadeira vazia na grade de baixo do forno e preencha-a com a água fervente com cuidado. Na grade de cima, coloque a assadeira com o pão. Retire a assadeira com água depois de 10 minutos. O pão ficará pronto em cerca de 30 minutos, quando estiver dourado por cima e no fundo.

Observações
- Eu converti as medidas em xícaras e colheres porque sei que muitos não possuem balança, mas para fazer pães e bolos a precisão faz muito diferença. Então sugiro que comprem uma balancinha digital com precisão de gramas. Não custa caro e irá melhorar a qualidade de suas receitas.
- Se não quiser usar a farinha integral, substitua-a pela comum na mesma quantidade (totalizando 375 gramas de farinha branca).
- A assadeira com água quente serve para deixar a casca do pão crocante, porém sem ficar dura. Se quiser aquela casca mais grossa, tipo “quebra dente”, não use a assadeira.
- Quando quiser fazer a casca do pão voltar a ficar crocante novamente depois de passados alguns dias, aqueça-o por alguns minutos no forno.

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Pão com cerveja preta do Game of Thrones

Hoje quem vai escrever aqui é o Mário, o fã mais fã que eu conheço da série de livros Crônicas de Gelo e Fogo (no original em inglês A Song of Ice and Fire) do autor George R. R. Martin. No último domingo estreou a segunda temporada de Game of Thrones, programa de TV exibido pela HBO baseado nesses livros. Eu nunca li as histórias, mas gostei demais da primeira temporada. Então convidei o Mário para falar um pouco sobre os livros, que já venderam mais de 10 milhões de unidades no mundo todo e estão na lista de mais vendidos no Brasil. E de quebra ganhei uns elogios no final! ;)

A Song of Ice and Fire é, sem dúvidas, a melhor coisa que li nos últimos anos. Falo sem medo. Muita gente torce o bico para os livros, principalmente porque são de fantasia (com castelos, espadas, um cenário medieval, etc). Mas eu sempre defendo dizendo que é uma literatura bastante madura, bem escrita e “de gente grande”.

A qualidade do texto que se vê em cada um dos livros – até agora são cinco, de prováveis sete – é algo realmente difícil de encontrar por aí. Cada palavra é colocada em seu lugar por um motivo, cada uma tem um propósito, além de um significado maior que a própria palavra, se encaixando de várias formas dentro da obra. O trabalho é minucioso e a impressão é de que o tempo inteiro o autor tem o controle completo de todas as letras que estão ali. É Literatura com L maiúsculo.

Como se não bastasse a qualidade da escrita em si, o homem é um verdadeiro mestre do desenvolvimento de personagens. Os livros não têm foco nos “fatos” da história que se desenrola, mas na visão dos personagens sobre o que está ocorrendo. Não é raro você odiar certos personagens enquanto são vistos pelo ponto de vista dos outros, mas mudar de ideia quando são eles narrando a história. Você entende do que cada um desses personagens é feito.


Mas o que isso tudo tem a ver com comida? Eu vim aqui para uma receita, oras! Pois não se afobe, caro leitor. O mesmo cuidado no desenvolvimento dos personagens ou das tramas que se desenrolam nos livros, o autor também usa para descrever as comidas. Cada refeição – desde um banquete no castelo a uma caça preparada na fogueira – tem cor, cheiro e sabor. É impossível ler e não ficar com água na boca. E é esse esmero que vejo aqui toda semana com cada receita da Marina. O cuidado com os detalhes e a maneira sagaz de passar cada sensação pelo texto é o que fazem desse blog um canto tão diferente dessa internet afora.

Apreciem um típico pão preto de Westeros e lembrem-se: “winter is coming“.

***

Pão com cerveja preta
A receita desse pão vem de um blog genial, o Inn at the Crossroads, em que eles fazem receitas baseadas nas comidas citadas nos livros do da série Crônicas de Gelo e Fogo. Além de ser muito fácil de fazer, resulta num pão macio e de sabor marcante. Ótimo para acompanhar sopas ou ser comigo com uma boa manteiga.

Rendimento: 2 pães grandes
Tempo de preparo: 4 horas

Ingredientes

- 350 ml de cerveja preta
- 2 e 1/4 de colher de chá (7 gramas) de fermento biológico seco instantâneo
- 2 colheres de sopa de mel
- 1 ovo
- 2 colheres de chá de sal
- 4 a 5 xícaras de farinha (eu usei 3 xícaras de farinha branca e 1 de farinha integral. Lembrando que a quantidade de farinha pode variar muito de acordo com o tipo de farinha e o clima, então tenha uma quantidade a mais reservada)

Como fazer

1. Numa tigela grande, adicione o fermento e depois a cerveja, misturando levemente para que o fermento dissolva. Deixe descansar por cerca de 5 minutos, até que se forme uma espuma fina.

2. Adicione o ovo levemente batido, o mel e o sal. Vá colocando a farinha aos poucos, misturando com as mãos ou com uma colher grande, até que seja possível formar uma bola de massa coesa. A massa não deve estar grudenta, mas ainda estará “colando” levemente nas mãos, como se fosse um durex fraquinho.

3. Enfarinhe uma superfície lisa e sove a massa por cerca de 10 minutos, adicionando um pouco mais de farinha quando necessário. Forme uma bola e volte com ela para a tigela. Cubra com um pano e deixe num canto escuro e quente (eu gosto de deixar dentro do forno desligado) por cerca de uma hora ou até que a massa dobre de tamanho. Dependendo do clima do dia, esse tempo pode variar bastante. No dia que fiz estava quente e a massa levou só meia hora para crescer.

4. Soque a massa para tirar o ar, divida em duas partes iguais e dê o formato desejado para o pão. Separe duas assadeiras, unte levemente com azeite e coloque cada pão em uma. Deixe crescer novamente por duas horas.

5. Pré-aqueça o forno a 220 graus. Enfarinhe levemente o topo dos pães e leve-os para assar por cerca de 30 minutos, ou até que fiquem com uma casca dourada. Deixe esfriar por alguns minutos e sirva.

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Seu trabalho é tangível? ( e um pão rústico de ervas)

No último domingo fiz  meu primeiro pão. Durante o processo fiquei meio desconfiada se estava no caminho certo; na hora de deixar o fermento agir, encarei-o sem piscar esperando a primeira bolha aparecer. Até o momento de colocar a massa para assar, eu ainda não sabia que resultado esperar. Foi daí que veio a minha euforia quando o tirei do forno e ele havia dado certo. Tinha até um jeito de pão-galã. Depois de sair pelo corredor  chamando todos da minha casa para vê-lo, pensei como era fascinante perceber o resultado tangível de um trabalho.

A situação me fez lembrar de um artigo de Matthew Crawford, publicado em 2009 no The New York Times. O autor havia acabado de lançar um livro onde conta sua experiência de largar um emprego em uma empresa para se tornar dono de uma oficina de motos. Usando sua trajetória como exemplo, ele faz uma interessante análise entre os trabalhos “intelectuais” e os “manuais”.

A verdade é que quem possui uma profissão  “de escritório”, como eu, sabe que muitas vezes o trabalho parece mais surreal do que real. Você fica lá, no computador, preenche planilhas, aprova orçamentos, participa de reuniões, escreve textos, faz planejamentos… mas no fim do dia, é vago afirmar o que foi conquistado. É pouco palpável. Nos trabalhos manuais, essa relação de causa e efeito é bem mais clara, e por isso o sucesso – e o fracasso – das ações é uma experiência mais visceral, mais ligada à realidade. O encanador sabe que seu trabalho é bom quando troca o cano da pia e a água flui pelo ralo normalmente.

Acho que é por isso que me sinto tão bem cozinhando. Quando assei o pão, por exemplo, senti uma felicidade ancestral de ter realmente feito algo, interferido na realidade, e o resultado ter sido positivo. Eu peguei farinha, água, fermento e ervas e transformei num pão!

***

Pão rústico de ervas
Se não tiver todas as ervas para a receita, acredito que possam ser substituídas (respeitando-se as quantidades), mas não garanto que o sabor será tão bom quanto. Se não encontrar o fermento biológico fresco no supermercado, peça em alguma padaria, que normalmente vende a granel. Esse pão se conserva bem dentro de um saco de plástico durante alguns dias, e recupera o aroma e crocância se aquecido no forno por alguns minutos.

Receita do livro “Cozinhando com Amigos”, da Heloísa Bacellar.
Rendimento: 2 pães grandes

Ingredientes

4 colheres de sopa de azeite
1 cebola grande bem picadinha
4 dentes de alho picadinhos
1 xícara bem cheia de uma mistura de folhas de alecrim, manjericão, sálvia, salsinha e tomilho
1 colher de sopa de sal
30 gramas de fermento biológico
2 colheres de chá de açúcar
1 ½ xícara de água morna
1 xícara de leite
Farinha o quanto baste (a receita pede 6 ½ xícaras, mas usei aproximadamente 10 xícaras)
2 colheres de sopa de sal grosso
Azeite de oliva para pincelar
Pimenta-do-reino

Como faz

1. Numa frigideira, faça um refogadinho com a cebola, o alho e as ervas: aqueça o azeite, junte a cebola até dourar, acrescente o alho, espere perfumar e misture as ervas. Mexa bem, jogue o sal e a pimenta, misture mais um pouco e reserve.

2. Coloque o fermento e o açúcar em um tigela. Joque por cima a água morna e vá dissolvendo o fermento. Junte ½ xícara de farinha e deixe descansar por uns 15 minutos, até surgirem bolhas.

3. Junte o leite e o reforgado de ervas à massinha de fermento. Depois vá adicionando farinha aos poucos, trabalhando a massa até que comece a soltar da tigela. Nesse ponto, transfira a massa para um superfície lisa,  polvilhada com farinha.

4. É hora de sovar a massa. Esse processo é responsável pela formação do glúten no pão, tornando-o macio, e ajuda a distribuir os gases que são produzidos pelo fermento. Para sovar, vá dobrando e esticando a massa com a base da palma da mão, adicionando mais farinha aos poucos, até que ela desgrude totalmente da superfície e esteja firme. O tempo de sova varia de acordo com a farinha. Eu levei uns 10 minutos para chegar no ponto da massa, que fica lisa e macia. Nesse vídeo dá para visualizar melhor o que é sovar.

5. Volte a massa para a tigela, cubra com filme plástico e deixe repousar por mais ou menos 1 hora, até dobrar de volume.

6. Divida a massa ao meio, molde duas bolas, coloque cada uma numa assadeira untada com azeite ou simplesmente espalhe toda a massa na assadeira se quiser um pão retangular. Cubra com um pano e deixe crescer por  mais 1 hora, lembrando de aquecer o forno a 220°C (alto) quando faltarem 15 minutos para completar o tempo.

7. Pincele a superfície com azeite, polvilhe com o sal grosso e asse por uns 40 minutos, até crescer e dourar.

8. Espere esfriar e conserve os pães num saco plástico fechado ou embrulhe em papel-alumínio.

Dica: depois de tirar do forno, eu preferi tirar um pouco do sal grosso por cima com medo que ficasse salgado demais. A Flávia, que contou a experiência dela nos comentários, disse que o pãodela ficou um pouco salgado. Acho que pode ser por isso.


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