Seu trabalho é tangível? ( e um pão rústico de ervas)

No último domingo fiz  meu primeiro pão. Durante o processo fiquei meio desconfiada se estava no caminho certo; na hora de deixar o fermento agir, encarei-o sem piscar esperando a primeira bolha aparecer. Até o momento de colocar a massa para assar, eu ainda não sabia que resultado esperar. Foi daí que veio a minha euforia quando o tirei do forno e ele havia dado certo. Tinha até um jeito de pão-galã. Depois de sair pelo corredor  chamando todos da minha casa para vê-lo, pensei como era fascinante perceber o resultado tangível de um trabalho.

A situação me fez lembrar de um artigo de Matthew Crawford, publicado em 2009 no The New York Times. O autor havia acabado de lançar um livro onde conta sua experiência de largar um emprego em uma empresa para se tornar dono de uma oficina de motos. Usando sua trajetória como exemplo, ele faz uma interessante análise entre os trabalhos “intelectuais” e os “manuais”.

A verdade é que quem possui uma profissão  “de escritório”, como eu, sabe que muitas vezes o trabalho parece mais surreal do que real. Você fica lá, no computador, preenche planilhas, aprova orçamentos, participa de reuniões, escreve textos, faz planejamentos… mas no fim do dia, é vago afirmar o que foi conquistado. É pouco palpável. Nos trabalhos manuais, essa relação de causa e efeito é bem mais clara, e por isso o sucesso – e o fracasso – das ações é uma experiência mais visceral, mais ligada à realidade. O encanador sabe que seu trabalho é bom quando troca o cano da pia e a água flui pelo ralo normalmente.

Acho que é por isso que me sinto tão bem cozinhando. Quando assei o pão, por exemplo, senti uma felicidade ancestral de ter realmente feito algo, interferido na realidade, e o resultado ter sido positivo. Eu peguei farinha, água, fermento e ervas e transformei num pão!

***

Pão rústico de ervas

Se não tiver todas as ervas para a receita, acredito que possam ser substituídas (respeitando-se as quantidades), mas não garanto que o sabor será tão bom quanto. Se não encontrar o fermento biológico fresco no supermercado, peça em alguma padaria, que normalmente vende a granel. Esse pão se conserva bem dentro de um saco de plástico durante alguns dias, e recupera o aroma e crocância se aquecido no forno por alguns minutos.

Receita do livro “Cozinhando com Amigos”, da Heloísa Bacellar.
Rendimento: 2 pães grandes

Ingredientes

4 colheres de sopa de azeite
1 cebola grande bem picadinha
4 dentes de alho picadinhos
1 xícara bem cheia de uma mistura de folhas de alecrim, manjericão, sálvia, salsinha e tomilho
1 colher de sopa de sal
10 gramas de fermento biológico seco instantâneo (1 envleope)
2 colheres de chá de açúcar
1 ½ xícara de água morna
1 xícara de leite
Farinha o quanto baste (a receita pede 6 ½ xícaras, mas usei aproximadamente 10 xícaras)
2 colheres de sopa de sal grosso
Azeite de oliva para pincelar
Pimenta-do-reino

Como faz

1. Numa frigideira, faça um refogadinho com a cebola, o alho e as ervas: aqueça o azeite, junte a cebola até dourar, acrescente o alho, espere perfumar e misture as ervas. Mexa bem, jogue o sal e a pimenta, misture mais um pouco e reserve.

2. Coloque o fermento e o açúcar em um tigela. Jogue por cima a água morna e deixe repousar até surgirem uma bolhinhas na superfície.

3. Junte o leite e o refogado de ervas ao fermento. Depois vá adicionando farinha aos poucos, trabalhando a massa até que comece a soltar da tigela. Nesse ponto, transfira a massa para um superfície lisa,  polvilhada com farinha.

4. É hora de sovar a massa. Esse processo é responsável pela formação do glúten no pão, tornando-o macio, e ajuda a distribuir os gases que são produzidos pelo fermento. Para sovar, vá dobrando e esticando a massa com a base da palma da mão, adicionando mais farinha aos poucos, até que ela desgrude totalmente da superfície e esteja firme. O tempo de sova varia de acordo com a farinha. Eu levei uns 10 minutos para chegar no ponto da massa, que fica lisa e macia. Nesse vídeo dá para visualizar melhor o que é sovar.

5. Volte a massa para a tigela, cubra com filme plástico e deixe repousar por mais ou menos 1 hora, até dobrar de volume.

6. Divida a massa ao meio, molde duas bolas, coloque cada uma numa assadeira untada com azeite ou simplesmente espalhe toda a massa na assadeira se quiser um pão retangular. Cubra com um pano e deixe crescer por  mais 1 hora, lembrando de aquecer o forno a 220°C (alto) quando faltarem 15 minutos para completar o tempo.

7. Pincele a superfície com azeite, polvilhe com o sal grosso e asse por uns 40 minutos, até crescer e dourar.

8. Espere esfriar e conserve os pães num saco plástico fechado ou embrulhe em papel-alumínio.

Dica: depois de tirar do forno, eu preferi tirar um pouco do sal grosso por cima com medo que ficasse salgado demais. A Flávia, que contou a experiência dela nos comentários, disse que o pãodela ficou um pouco salgado. Acho que pode ser por isso.


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19 Resultados

  1. Adriano disse:

    Eu posso usar fermento biológico de tablete????

  2. Maria Soares disse:

    Oi estou entrando pela primeira vez . O pão é fantástico fico imaginando o perfume que deve ter. Mas fiquei em dúvida qto a misturar fermento e açúcar ?

    • marina maria disse:

      Oi Maria, tudo bem? Então, o fermento biológico que usei nessa receita é do tipo fresco. Você esfarela ele com o açúcar e depois coloca a água morna por cima, misturando para dissolver. Deu para entender? Qualquer coisa me escreve de novo aqui. Um beijo!

  3. Flávia Dorado disse:

    Nina, preciso contar a todos sobre a experiência de fazer um pão!
    Na última sexta-feira, cheguei em casa como quem quer se deliciar com a experiência de um trabalho tangível… e comecei a fazer o pão rústico!
    Considerando a minha frágil experiência na cozinha, até que ficou bom. Um pouco mais salgado do que deveria… mas bom!
    A parte de sovar o pão é custosa, mas dá prazer ver o pão sair do forno com a aquela elegância toda!
    Amiga, adorei… essa experiência marcou a minha vida, futura e promissora na cozinha!
    Beijos!

    • marina maria disse:

      Ah que alegria Flá! Olha só, pode ter ficado um pouco salgado por conta do sal grosso mesmo. Eu, quando tirei ele do forno, tirei um pouco do sal grosso por cima, deixando só pouquinho. Esqueci de dar essa dica, foi mal =/ É que foi meio instintivo..rsrs. Mas vou incluir essa observação lá na receita.

      beijoca!

  4. Taís disse:

    Conheci seu blog hoje e adorei seus textos, parabéns pelo conteúdo.

  5. Flávia Dorado disse:

    digo visceral…

  6. Flávia Dorado disse:

    Dany concordo com você. Eu adoro os textos da Nina, eles sempre mexem muito comigo.
    Acabo de ler esse post e só penso em passar no supermercado, comprar os ingrediente e fazer esse pão maravilhoso. Preciso de uma “experiência mais viceral” nessa vida tão “surreal”…

  7. Lylia disse:

    Oi Marina,
    Que texto bonito e verdadeiro. Realmente quando cozinhamos sentimos claramento o resultado de nosso trabalho.É muito boa a sensação do “Fui eu que fiz”.Daí o prazer que dá cozinhar.
    Vi sua indicação no blog da Maria do site do inglês http://www.timewitnesses.org/english/food/rations.htm e achei muito interesante.
    É bom quando a blogosfera proporciona essa troca de informações.
    Bj e bom fim de semana,
    Lylia

    • marina maria disse:

      Lylia, isso também é uma das coisas que mais gosto, essa troca entre os blogs. Que bom que vc gostou! Vamos nos esbarrando por aí. Beijoca

  8. Dany - do Lê disse:

    Ah, péssima a minha identificação!!! Dany, do Lê!! =)

  9. Delícia esse pão!

    Minha mãe tá vindo passar as férias aqui e ela adora pão! Posso encomendar? =)

    Troco por alguns ovos caipiras! kkkkk

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