Orgulho alheio + Geleia de figo

Quanto mais me envolvo com o mundo da comida e seus aspectos afetivos, sociais, econômicos e políticos, mais me orgulho quando encontro um prato ou produto que, além de valorizar o gosto, também se importa com todas essas outras questões. É um tipo de “orgulho alheio” por aqueles que incentivam o produtor local, atentam para os detalhes no processo de produção, valorizam seus empregados e cultivam confiança no cliente. Já senti isso pelo pão de queijo que vende pertinho da minha casa, feito até hoje com a receita da avó do dono; pelo limão siciliano da barraca do seu Livaldo, sempre muito brilhante e suculento; pelas carnes vermelhas feito desenho animado vendidas no Dickson’s, em NY, e em tantas outras situações.

Na semana passada, o sentimento apareceu por um queijo, o Catauá. Quem deu a dica foi o jornalista Eduardo Girão, que comeu o bendito em um restaurante de BH. Pesquisando sobre o Catauá, descobri que ele é produzido por João Dutra, no Sítio dos Coqueiros, na cidade de Coronel Xavier Chaves, bem no alto da Serra da Mantiqueira. As vacas vivem em regime semiconfinado, são tratadas só com homeopatia e se alimentam de pasto cultivado quase totalmente com adubos orgânicos.

Fui atrás dele no Mercado Central e dei sorte de pegar o último disponível. Assim que cheguei em casa e comi uma fatia, todas as informações que tinha sobre o queijo se diluíram em maravilhamento. O sabor ácido e salgadinho, a textura firme e os buraquinhos (são olhaduras, ensinou minha avó) me transportaram para uma mesa ao lado do fogão à lenha.  Tive vontade de abraçar seu João  e dizer pra ele nunca abandonar esse jeito de fazer as coisas.

Quando contei para os amigos da minha descoberta, a primeira pergunta foi sobre o preço. Diante da resposta, muita gente achou o valor absurdo, mesmo depois da minha explicação sobre como o produto é bem feito. Talvez porque estivessem comparando com outros queijos mineiros – realmente temos queijos de todos os tipos e preços. Ou então porque estamos acostumados a pagar mais caro pelas variedades importadas, como um brie ou gorgonzola.

Sei que essa questão de valor é sempre subjetiva. No entanto, para mim, se meu dinheiro pode comprar mais que um ótimo queijo, mas um queijo de dar orgulho, então vale cada centavo.

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Geleia de figos

Quando experimentei o Catauá, logo imaginei que ficaria delicioso com doce de leite ou uma geleia docinha, feito a de figo. Aproveitando o fim da safra da fruta, comprei algumas bem maduras e fiz pouca quantidade, para consumir no dia. Mas você pode dobrar ou quadruplicar a receita e guardá-la em vidros esterilizados para durar mais tempo na geladeira.

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Rendimento: 1 xícara

Ingredientes

– 250 gramas de figos frescos e maduros (8 a 9  figos)
– ½  de xícara de açúcar cristal
– 1 canela-em-pau
– Suco e raspas de ½ limão tahiti

Como fazer

1. Lave os figos sob água corrente, coloque em uma tigela e entorne água quente sobre eles até cobrir. Deixe repousar por dez minutos. Isso ajuda a matar alguma bactéria ou sujeira que tenha ficado na casca e faz a geleia durar mais.

2. Escorra a água e tire os cabinhos dos figos. Corte cada fruta em oito partes (ou em quatro, se você gosta da geleia mais pedaçuda, como eu). Coloque os pedaços numa panela pequena, a mais pesada que tiver, e adicione o açúcar, a canela, as raspas e o suco do limão. Misture tudo delicadamente, tampe e deixe a panela na geladeira por no mínimo três horas. O ideal é deixar de um dia para o outro.

3. Na hora de preparar a geleia, coloque um pratinho no freezer para testar o ponto. Leve a panela destampada no fogo médio até a mistura ferver. Abaixe o fogo e deixe apurando por cerca de 20 minutos, mexendo de vez em quando e amassando os figos com as costas da colher.

4. Quando começar a engrossar, teste o ponto da geleia, colocando um pouco no pratinho que estava gelando. Volte com ele para o freezer por alguns minutos e depois empurre a geleia com o dedo. Se estiver firme e a superfície enrugar levemente, está pronta.

5. Transfira para um potinho e sirva. Se estiver fazendo em maior quantidade, coloque em potes esterilizados e mantenha na geladeira.

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3 Resultados

  1. Nossa, que delícia! Vou procurar o seu João no Mercado e testar essa geleia maravilhosa. Obrigada pela dica!!

  1. 5 de junho de 2014

    […] A alegria está em visitar lojas com pessoas em vez de corredores extensos e prateleiras milimetricamente arrumadas. Comprar olhando no olho de vendedor – e só depois de provar se a castanha está novinha – me lembra que relações de consumo envolvem gente. Lá é também o lugar de produtos e comidinhas especiais. Graças ao Mercado, descobri o árabe da  D’Hana, o sanduíche de pernil com abacaxi da Bárbara, as castanhas da Ananda, o limão-capeta do seu Osvaldo, o queijo Catauá… […]

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