Amor de torradas e de leite queimadinho

O primeiro trecho do livro “Toast”, de Nigel Slater, é assim: (tradução minha):

“Minha mãe está raspando um pedaço de torrada queimada da janela da cozinha; há uma ruga de irritação na sua testa. Essa não é uma ocorrência ocasional, algo que acontece de vez em quando no dia-a-dia apressado de uma mãe. Minha mãe queimar a torrada é tão certo quanto o sol nascer toda manhã. Aliás, duvido que ela já tenha feito uma leva de torradas na sua vida que não tenha enchido a cozinha de cinzas e fumaça. Eu tenho nove anos e nunca vi manteiga sem pedacinhos pretos nela.

É impossível não amar alguém que faz torradas para você. As falhas das pessoas, mesmo as grandes como quando elas fazem você usar calças curtas na escola, se tornam insignificantes quando seus dentes rompem uma casca dura e dourada e afundam na maciez e fofura do pão. Uma vez que a a manteiga salgada e quentinha atinge sua lingua, você está perdido. Está nas mãos delas.”

Além de ser um ótimo início de livro, esse pedaço me fisgou porque fala de um tipo de comida afetiva que não está ligada ao conhecimento ou gosto culinário de quem fez. É baseada no gesto, não no prato.

Assim como Nigel, também tenho lembranças da minha mãe fazendo torradas quando eu era criança. Eram feitas no forno e apenas no sábado de manhã. Ela cortava o pão de forma em quatro, espalhava um pouquinho de maionese, salpicava presunto e queijo ralado por cima e jogava um pouquinho de orégano. No forno, elas douravam e saíam com o queijo derretendo. Ninguém mais na minha casa gostava dessas torradinhas, só eu. Talvez por isso até elas fossem tão gostosas: um café da manhã exclusivo para mim.

Acho que as memórias mais queridas que tenho da minha mãe na cozinha são assim, de coisas simples, de gestos. Como o leite queimado que ela oferecia no frio. Aliás, o inverno era a época de nos oferecer duas coisas que eram sempre veementemente negadas: esse leite e sopa. O primeiro, convenhamos, não tinha um nome muito convidativo. A sopa é impopular até os dias de hoje.

Um dia vi ela fazendo o tal leite queimadinho. Numa panelinha, ela polvilhava açúcar e deixava ele lá paradinho por alguns minutos – até que de repente, como mágica, o açúcar sumia e dava lugar a um líquido dourado e e perfumado. O cheiro de caramelo invadia a cozinha e era seguido pelo som de “tchhhhiiii” do leite frio caindo por cima da calda âmbar. Depois de um tempo, o branco do leite virava bege e surgia um líquido maravilhoso. Quentinho, docinho, um tipo de sabor que não dá para esquecer.

É impossível não amar alguém que faz leite queimado para você.

***

Leite queimadinho
Parece engraçado dar uma receita dessa bebida, que em alguns lugares é conhecida como “queimadinha”, pois ela é muito simples. Ainda assim, acho que tem alguns segredinhos, por isso resolvi postar. Se você nunca provou, pare o que está fazendo e vá para a cozinha agora.

Leite_queimado_1

Rendimento: 1 xícara


Ingredientes

– 2 colheres de sopa de açúcar (pode ser cristal, refinado, mascavo, demerara…)
– 1 xícara de chá (240 ml) de leite
– 1 canela em pau (opcional)

Como fazer

1. Coloque a leiteira na menor tremp do fogão e polvilhe o açúcar no fundo. Ligue o fogo baixo e não mexa mais – espere até que o açúcar derreta e vire caramelo (mexer com a colher pode fazer empedrar). Eu gosto de deixar até fique num tom de dourado escuro, mas se você nunca fez caramelo, para não correr o risco de queimar é mais seguro deixar até uma cor âmbar. Se perceber que os cantos estão escurecendo mais rápido que o centro, segure a leiteira pela alça e faça movimentos circulares para ajudar o açúcar a espalhar.

2. Entorne o leite de uma vez, com cuidado. Se tiver usando a canela, adicione nesse momento. O caramelo irá endurecer, mas não tem problema. A medida em que o leite esquenta, tudo vai se misturar. Aguarde alguns segundos e vá mexendo com uma colher. Assim que o leite ferver, desligue. Sirva quentinho.

Leite_queimado_2

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4 Resultados

  1. ATorres disse:

    Marina, coloque 1 folha quebrada ao meio (de limão ou laranja) assim que jogar o leite. Dá um toque muito bom. Minha avó fazia assim, quando alguém estava gripado. E nessa hora, todos tossiam ou espirravam, só pra ganhar um pouco…rs

  2. silvana mascagna disse:

    Minha mãe fazia leite queimado, que ela chamava de leite caramelizado, quando a gente gripava. Adoro! E parabéns você escreve lindamente!

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