Um radinho, uma broa e uma saudade

A luz do sol entrava nas frestas da persiana e refletia em filetes nas cobertas. O rádio-relógio piscava em verde-flúor às 7h da manhã e, junto com o alarme, eu ouvia as notícias do dia sendo narradas lá no fundo. De vez em quando era uma propaganda das lojas “Lua de Mel”.

Tia Ana levantava e eu ia um tempo depois, para já encontrar os sacos grandes de pão na mesa da cozinha. Para mim, e às vezes para o meu irmão também, ela fazia um achocolatado na medida certa: meio-claro-quase-escuro. O pão quentinho quase derretia a manteiga. Podia ser que tivesse broa, a melhor broa do mundo, que sobrava do café da tarde do dia anterior. Eu gostava de comer na sala, no chão, entre umas almofadas grandes e molengas. Ela até deixava eu fazer isso, mas eu tinha que catar minha migalhas depois com coisa engraçada de plástico marrom chamada “feiticeira”.

Sentada ali, frequentemente entediada, eu esperava o relógio chegar às 8 horas. Era uma regra da casa – só depois desse era o horário era permitido ligar a TV. Enquanto isso ouvíamos o programa do Acir Antão no rádio e conversávamos sobre qualquer coisa. E dali íamos vendo o resto da família acordar. Para cada um ela preparava um café da manhã diferente. Para um dos meus primos ela fervia o leite e separava a nata, que ele comia de colherada sentado no chão da cozinha, entre o fogão e a geladeira. Para o outro guardava um saco inteiro de dez pães. Sim, ele comia DEZ pães sozinho.

Ela sempre iniciava o dia do mesmo jeito que fazia tudo, com grandes doses de carinho. E foi assim começaram muitos sábados e domingos da minha infância. Existia algo nesse momento do dia que compartilhávamos, essa rotina serena, de um silêncio delicado, que foi muito importante para mim. Ao mesmo tempo em que ansiava pela hora de assistir meus desenhos animados, gostava de ser sua “assistente” da manhã, a pessoa com quem ela dividia aquelas primeiras horas. Era meu jeito de acordar favorito.

O dia então passava,  He-Man lutava contra o Esqueleto, o almoço cheirava da cozinha, as bicicletas rodavam na pracinha. A luz do sol ia embora aos poucos e chegava a hora do banho e de assistir Os Trapalhões. Como dividíamos o quarto na hora de dormir, eu observava atenta seus hábitos: o creme com cheiro de rosas, o pente fino no cabelo, os óculos no criado-mudo. Ela lia um pedaço de um livro de romance e deixava o rádio ligado baixinho. Eu me aninhava na coberta azul de pelinhos, respondia ao seu “boa noite” amoroso e ficava ali, sonhando com a brincadeira do dia seguinte e ouvindo o locutor falar de qualquer coisa lá no fundo, deixando sua voz me levar até o sono. Era meu jeito de dormir favorito.

Dessas manhãs e noites ficou uma saudade tremenda. Dessas e de tantas outras coisas.

Por isso hoje vou comer uma broa e dormir ouvindo rádio Itatiaia.

***

Broa de fubá com queijo
Aqui em Minas chamamos de broa o bolo de fubá. Essa é receita não é a da tia Ana. Não quis arriscar porque sabia que nunca ficaria do mesmo jeito. Mas ainda assim é uma ótima receita, muito gostosa e perfeita para acompanhar um café pingado.

Ingredientes

– 1 xícara de chá de farinha de trigo
– 1 xícara de chá de fubá
– 1 e 1/2 xícara de chá de açúcar
– ⅔ de xícara de óleo (a receita original pede uma xícara, mas gosto de reduzir um pouco)
– 1 xícaras de leite de coco (pode ser substituído por leite)
– 3 ovos (4 se os ovos forem pequenos)
– 4 colheres de sopa de queijo Minas ralado
– 1 colher de sopa de fermento em pó

Como fazer

1. Pré-aqueça o forno a 180 graus. Unte e polvilhe com fubá uma assadeira ou uma forma com furo no meio.

2. Bata todos os ingredientes no liquidificador, menos o fermento, até que fique uma massa homogênea. Acrescente-o por último, batendo apenas até incorporar. Despeje na forma e asse por cerca de 30 minutos, ou até que um palito saia seco ao ser espetado no centro do bolo. Espere esfriar, desenforme e sirva.

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2 Resultados

  1. Fê Maria disse:

    que lembrança gostosa! e a broa me deu água na boca! 🙂

  2. leticia disse:

    Linda homenagem, Marina!!!
    bjs