Jacarés imaginários + Quibe assado recheado com coalhada

Acho que toda criança passa por aquele processo de descobrir que uma coisa que você acreditava piamente que existia não é real. Tem esses momentos que parecem ser comuns a muita gente, como ficar sabendo que papai noel é uma invenção e aquele cara de barba branca no Natal era seu tio disfarçado. O que eu acho mais engraçado, no entanto, são os casos em que a criança acredita numa coisa muito particular e específica, muitas vezes boba demais para comentar com as outras pessoas. E aí, depois de se passarem anos, e na maioria das vezes sem querer, pimba: ela descobre a verdade.

Isso já aconteceu tantas vezes comigo que acho melhor nem comentar todas. Pega mal, né? É que eu era uma criança excessivamente imaginativa. Talvez porque me entediava muito facilmente, daí cismava de inventar coisas e passava a acreditar nelas como se não tivessem saído da minha cabeça. O processo de perceber isso começou na adolescência, com um caso que nunca vou esquecer. Eu morava em frente a um colégio estadual e, nos fins de semana, meus amigos e eu entrávamos lá por debaixo do portão para brincar no terreno. A brincadeira durou até que a escola ganhou novos portões, sem frestas por onde podíamos passar. Anos e anos depois, comentando dessa época com minha mãe, eu disse assim:

– Mãe, lembra daquela época que eu brincava no colégio lá e tinha um tanque com uns jacarés filhotes?
– (…)

Depois de um tempo sem falar nada, ela riu e disse que nunca tiveram jacarés na escola; eu que tinha inventado isso na época. Muito revoltada, eu briguei e discuti dizendo que tinham sim jacarés, num tanquinho com água, em frente a quadra de futebol…

Sei que agora, pensando friamente, a ideia de uma escola com jacarés é absurda. Entendo que naquele momento eu deveria ter pensado que era bem mais provável que aquilo tivesse sido imaginação. Mas eu tinha essa imagem nítida dos jacarés lá, da gente observando meio de longe e depois cutucando a pele grossa de um deles com uma graveto bem comprido. Eu “lembro” de tudo. E até hoje tenho essa cena na minha cabeça, mesmo sabendo (bom, pelo menos de acordo com a minha mãe e com o bom senso geral) que aquilo não existiu.

Há alguns anos estudei sobre memória para escrever um artigo e essa história me voltou muito à cabeça. Aprendi com os teóricos que a memória é uma construção dinâmica, feita cada vez que nos lembramos de alguma coisa. Não se refere ao movimento de apenas guardar uma coisa e pegá-la de volta depois, como fazemos com um suéter de inverno. Ela muda, se renova, se recria. Não é um reflexo do acontecimento em si, mas do tipo de sentido que imprimimos naqueles fatos. E o que eu fiz com a história dos jacarés não foi guardar a lembrança do tanque real, mas da narrativa que criei para ele.

Hoje percebo que possuo muitas memórias desse tipo, das histórias que eu inventava sobre coisas que aconteceram. E é muito engraçado essa sensação de não saber se você viveu mesmo aquilo ou se está só lembrando da invenção. Picasso dizia: “tudo o que você pode imaginar é real”. Acho que estou com ele nessa.

***
Quibe assado com recheio de coalhada seca
Eu nunca tinha feito ou provado quibe assado e ainda assim me deu um desejo louco de comer isso outro dia. Pesquisei várias receitas na internet e acabei fazendo uma combinaçaõ de todas – então você também pode brincar um pouco com os temperos.Fica delicioso como petisco ou acompanhado de uma bela salada!


Massa:
– 250 gramas de trigo para quibe
– 500 gramas de carne moída (usei patinho)
– 3/4 de xícara de azeite
– 1 cebola pequena
– 1 xícara de hortelá fresca
– 1/2 colher de chá de pimenta síria (ou pimenta-do-reino moída na hora mais uma pitada de canela)
– 1 colher de chá de sal
– 1/2 xícara de castanha de caju
– 2 dentes de alho
– Suco de um limão

Recheio:
– 200 gramas de coalhada seca (se você não encontrar a coalhada, pode usar requeijão ou então creme de ricota misturado com um pouco de suco de limão)

Como fazer

1. Deixe o trigo de molho em uma bacia com água morna por cerca de 30 minutos, até que ele absorva a água e fique inchado.

2. Pré-aqueça o forno a 250 graus. Unte com azeite uma assadeira média.

3. No liquidificador ou processador, bata o azeite, a cebola, a hortelã, a pimenta, o sal, a castanha de caju, o alho e o suco de limão. O resultado será uma pastinha de temperos.

4. Coloque a carne moída numa tigela e adicione os temperos batidos. Vá retirando o trigo do molho aos poucos, apertando bem cada punhado com as mãos para tirar o excesso de água. Junte-o à carne e amasse tudo com as mãos, trabalhando bem para dar liga, até que a massa fique homogênia e macia.

5. Coloque metade da massa da forma, nivelando com as mãos. Espalhe a coalhada e depois coloque o restante da massa por cima. Cubra com papel alumínio e leve ao forno por cerca de 20 minutos, até que a carne adquira uma cor cinza. Retire o papel alumínio e deixe por mais 10 minutos ou até criar uma casquinha no topo. Cuidado para não assar demais, ou o quibe irá ressecar. Retire do forno, corte em quadrados e sirva.

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4 Resultados

  1. Glaucia Dubai disse:

    Adoreeeei seu blog e a receita!!!
    Parabens e obrigada por compartilhar 🙂

  2. Tatá disse:

    Acho que sou uma sabia…rs…sempre pensei isso sobre a memoria e, talvez por isso, insisto em dizer que nao me lembro das coisas porque minha racionalidade nao me permite ‘lembrar’ de algo que eu sei que nao foi bem assim…posso substituir a coalhada por queijo ‘normal’?? Minas, por exemplo?

    • marina maria disse:

      Pois é, a memória não é uma coisa tão simples e assertiva quanto a gente imagina…

      O queijo pode ser outro sim! Pode ser minas, muçarela, requeijão. Só não recomendo usar algum que não derreta bem. E pode ser sem recheio também se quiser! Um beijo!

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