Infância bucólica + Bolo de Limão e Iogurte

Estou lendo o livro “Sangue, Osso e Manteiga”, da Gabrielle Hamilton, chef do Prune, e fiquei impressionada com os relatos sobre sua infância. Ela morava numa casa que tinha um pequeno rio nos fundos, colhia cogumelos com sua mãe na casa dos vizinhos e assava imensos cordeiros no jardim. Parecia uma realidade tão distante mas, quando parei para pensar, eu também tive minha dose de bucolismo na infância.

Como já contei aqui, meu pai era pescador de paixão e por isso as viagens de pescaria eram frequentes. Com elas acostumei dormir em barraca, tomar banho no rio e comer no almoço o peixe pescado de manhã. No jardim da minha casa, meu pai mantinha um minhocário numa caixa de isopor com terra e restos de frutas e verduras. Ele criava minhocuçus, aquelas minhocas gigantes e bastante nojentas, e levava-os vivos no carro para usar como iscas na pescaria.

Também costumávamos ir para o sítio do meu tio em Itabirito, que tinha uma casa que não era bem casa. Não tinha portas ou janelas, apenas paredes de tijolo laranja e chão batido, onde dormíamos em colchões. Mas tinha um paiol e galinhas muito bravas. Ali ele mantinha também um alambique de onde sempre saía um cheiro denso e doce.

Caminhando cinco minutos pela estrada de terra chegávamos na casa da vó Geralda, minha avó torta. As casas eram tão próximas que era possível saber quando a vó estava fazendo pão doce, pois o cheiro viajava rápido. A casa dela tinha portas e janelas grandes, de madeira escura e pesada, que rangiam muito de noite – por isso dava medo de dormir lá.

Eu, meu irmão e meus primos costumávamos passar o dia ali, brincando com os gatos e subindo nas goiabeiras, e voltávamos para o outro sítio apenas para dormir. A primeira vez que andei de cavalo foi no quintal dessa casa e na bem da verdade era uma mula. Acho que cheguei a ficar uns cinco minutos em cima dela, até levar um tombo em cima da plantação de couve. Nesse dia a vó saiu gritando da casa, brigando comigo porque tinha estragado as folhas dela. Nem perguntou se eu tinha machucado…

Comi muita jabuticada, pitanga, mexerica e amora do pé. Meu pai costumava parar no meio da estrada se via uma mangueira carregada ou um pé de jambo. Também levei muito arranhão, ferrada de maribondo e picada de carrapato. Com o tempo, comecei a me entediar nas viagens; cansei da barraca sem TV e do barco sem rádio. Sentia falta das luzes, ruas, música, do burburinho da cidade. Principalmente do meu quarto, do meu espaço. Enfim, adolesci. Mas continuei tendo uma relação de muito carinho com o mato, daquelas que temos com amigos de infância.

***
Bolo de limão e iogurte
No Carnaval fui para um sítio de amigos e voltei de lá com uma sacola carregada de limões. O destino de algum deles foi esse bolo, que depois de vários testes, se tornou o meu favorito de limão, pois nele é possível sentir a fruta de verdade e não apenas seu perfume. Além de ser um bolo saboroso e azedinho, não precisa de batedeira. Você pode escolher não colocar a casquinha no final, mas a calda é essencial.

Ingredientes

– 1 e ½ xícara de farinha de trigo
– 2 colheres de chá de fermento em pó
– ½ colher de chá de sal
– 1 xícara (240 ml) de iogurte integral
– 1 xícara de açúcar
– 3 ovos grandes
– 2 colheres de chá de raspas de limão (dois limões pequenos)
– ½ colher de chá de extrato de baunilha
– ⅓ de xícara de azeite de oliva extra virgem

Para a calda:
– ⅓ de xícara de açúcar
– ⅓ de xícara de suco de limão

Para a casquinha de acúcar:

– 1 e 1/2 xícaras de açúcar de confeiteiro
– 2 colheres de sopa de suco de limão
– 1 colher de sopa de água fervente

Como fazer

1. Pré-aqueça o forno a 180 graus. Unte uma forma de bolo inglês de 25 cm X 11cm. Cubra o fundo com papel manteiga e unte por cima do papel. Enfarinha a forma.

2. Em uma tigela, peneire juntos a farinha, o fermento e o sal.

3. Em outra tigela, esfregue o açúcar e as raspas de limão com as pontas dos dedos até que o açúcar fique levemente úmido. Isso liberar o sabor das raspas. Depois adicione os ovos, misturando bem com um batedor de arames. Em seguida, acrescente o iogurte e a baunilha.

4. Vá adicionando os ingredientes secos aos poucos, misturando bem a cada adição para evitar que se formem carocinhos de farinha na massa. Faça isso até que não haja resquícios da farinha. Com ajuda de uma espátula, misture o azeite à massa até ficar homogêneo.

5. Coloque a mistura na forma e leve ao forno por cerca de 45 minutos, até que o topo esteja dourado e um palito saia seco ao ser enfiado no meio do bolo.

6. Deixe o bolo esfriar por 10 minutos e enquanto isso prepare a calda. Leve o 1/3 de xícara de açúcar e 1/3 de xícara de suco de limão ao fogo baixo, misturando até que o açúcar dissolva e forme uma calda clara. Quando ferver, desligue. Deixe esfriar.

7. Com o bolo ainda morno, passe uma faquinha nas laterais e desenforme num prato. Retire o papel manteiga do fundo e vire-o numa gradinha com uma assadeira por baixo – a calda vai pingar, então é preciso algo no fundo para não fazer muita bagunça. Fure o bolo com um palito e comece a espalhar a calda com um pincel em todos os lados do bolo. Faça isso devagar, deixando que o bolo absorva cada camada da calda. Deixe esfriar.

8. Para a casquinha, junte todos os ingredientes e misture até formar um creme espesso. Pode ser que você precisa de mais uma colher de água quente, mas adicione aos poucos, pois ele não pode ficar líquido demais – apenas o suficiente para ser espalhado. Pincele no bolo e espere esfriar para se formar a casquinha.

Você pode gostar...

9 Resultados

  1. maria disse:

    Fiz esse bolo hj, adorei! Dos melhores bolos que já fiz e comi…

    • marinamaria disse:

      Maria, sabe que esse é um dos meus bolos favoritos aqui do blog? E seu comentário me lembrou que faz um tempo que eu não o faço. Preciso corrigir isso! rsrs. Fico feliz que você também tenha gostado!

  2. eloisa disse:

    Voltei. Fiz o bolo ontem, ficou maravilhoso, o ácido do limão e o contraponto da calda de açucar… não forrei com papel manteiga, apenas untei e enfarinhei.
    Acho que também deve ficar bom em tabuleiro pequeno.
    Obrigada, um beijo.

  3. Eloisa disse:

    Estou quase no final do livro: depois da infância bucólica a vida dela não foi fácil não! Escreve muito bem, o livro me prendeu – pensei que era um desses livros de chef deliciosos e leves de ler, mas é uma biografia densa de uma guerreira.
    Marina, você conheceu aquela casa ‘muito engraçada, não tinha porta, não tinha nada…’ Eu também tive a sorte de crescer num sítio, andando descalça, catando minhoca e enfiando no anzol, pegando cavalo no pasto. Sempre digo que são atividades mais importantes no meu currículo do que os montes de cursos que tenho feito pela vida. Foi assim que me construí como pessoa, em contato com a natureza e achando tudo muito simples. E uma vez caí de cabeça saltando nas colunas da varanda e ainda fiquei de castigo, depois que acordei do desmaio. Acho que a minha avó se assustava tanto que era assim que resolvia sua angústia.
    Nossa, que confissão! Acho que foi encontrar a Marina – de quem ganhei uma delícia de concurso, o ipod me acompanha! – e a amável Lylia, com quem já tive o prazer de trocar mensagens. Como um café virtual! Beijos, Eloisa.

  4. Lylia disse:

    Oi Marina,
    QUe infância boa você teve ! Gostei da dica do livro.Estou sempre à procura de uma novidade literária, esse eu não conhecia.
    QUanto ao bolo de limão ,me deu uma vontade enorme de fazer..
    Bj ,
    Lylia

  1. 9 de abril de 2012

    […] a dificuldade tenha surgido na minha tal infância bucólica. Com 10 anos vi meu tio matando uma galinha pela primeira vez, quebrando o pescoço num só […]

Comente!