Robôs e chicletes Ploc

Eu não entendo nada de futuro. Sempre que me pedem para imaginar algum cenário daqui a uma semana, um mês, um ano, eu aperto o botão de pânico mental.

Uma vez que precisei escrever sobre isso para passar na última etapa de uma prova de trainee. E eu era um olho no papel, outro no relógio. Papel, relógio. Papel, relógio. Colar de pérolas da moça sentada na minha frente. Barulho da caneta batendo na mesa do colega do lado. Olhava em volta esperando que alguém entrasse correndo pela sala gritando “fogo” ou anunciasse que havia uma infestação de ratos no prédio; eu toparia chutar ratos para não ter que responder à pergunta “como será sua vida daqui a 10 anos?”.

Aquela talvez tenha sido a primeira vez que uma folha em branco me venceu. Nem quando precisei responder à carta de uma garoto apaixonado dizendo que eu queria só amizade eu suei tanto no cantinho da orelha.

Pensar lá na frente não era comigo, mas eu seria a pessoa perfeita para ranquear todos os melhores chocolates dos anos 80 ou listar os filmes que mais se repetiam na Sessão da Tarde. Os nomes – e apelidos – das Spice Girls, todos os sabores de chiclete Ploc (meu favorito era o morancaxi). Podia contar detalhes do dia em que meu pai me deu meu primeiro sutiã ou de quando levei o maior tombo da minha vida de patins.

Ilustração: Mathiole

Ilustração: Mathiole

Faltando um minuto para acabar, escrevi: “daqui a 10 anos a vida vai ter mais robôs e muito mais itens na minha lista de saudades.” Entreguei a folha sabendo que não ia receber uma ligação deles. Esse era o sexto ou sétimo processo de trainee que eu estava tentando e, de tanto ouvir o papo de futuro, finalmente entendi que não havia lugar nessas empresas para uma especialista no passado.  

Engraçado pensar que agora, dez anos depois, o futuro é o passado. As empresas adoram os saudosistas. Querem fazer produtos, filmes, séries, comidas para nós. As bandas decidem voltar, as balas dos anos 90 estão nos supermercados. E eu aqui, desejando que houvesse mesmo mais robôs na nossa vida. Pelo menos um que lavasse a louça.

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