Pesto trapanese

Tem uma pergunta que está dormindo e acordando comigo nos últimos dias: o que é cozinhar?

Escuto tanta gente dizendo “não sei cozinhar”, mas quando começo a perguntar vejo que sabem preparar macarrão, misto quente, ovo cozido… Por que isso não conta como cozinhar? É muito fácil ou simples? Só valeria se envolvesse muitas panelas ou ingredientes? Ou teria que ter alguma técnica envolvida, como picar, refogar, misturar?

Cozer vem do Latim coquere, “submeter à ação do fogo, cozinhar, amadurecer”. A descoberta do fogo, realmente, mudou não só a forma como os humanos se relacionam com a comida, mas toda a nossa história e cultura (mais sobre isso, recomendo o primeiro episódio da série Cooked, do Netflix). Mas cozinhar não pode se limitar ao uso do calor – senão, do que a gente chamaria a preparação do sushi ou do sorvete?

Ainda assim, a ligação com o fogo traz uma ideia importante: a de transformação. O calor modifica as propriedades dos alimentos, e o cozinheiro faz o mesmo. Ele interfere, altera, soma, constrói. Modifica o cru em cozido e o cozido em assado. Pega ingredientes soltos e transforma em um todo melhor que as partes separadas.

Coquere era usado também para dizer “maquinar, planejar”. Aí achei outra pista. O raciocínio é parte fundamental de cozinhar. E não estou falando só de arquitetar um jantar com entrada, prato principal e sobremesa, mas também dos pensamentos que quase passam desapercebidos, que nos levam a decisões diárias como “vou colocar geleia no meu queijo quente” ou “posso usar essa sobra de estrogonofe como molho em uma massa”.

Então cheguei na definição de que cozinhar é o ato de transformar os alimentos e de usar o raciocínio, a criatividade, para preparar algo de comer.

Parece simples demais, e é. Não sei se esse interesse da mídia por chefs e técnicas culinárias, que culminou em um monte de programas de TV e séries sobre o tema, está atrapalhando a gente a enxergar que cozinhar não é uma ação grandiosa. Às vezes fica parecendo que os ovos mexidos não têm o mesmo valor que um prato de vieiras grelhadas. Mas têm. É tudo cozinhar, só que em diferentes contextos.

Ou seja, se você saber ferver água, jogar o macarrão lá, por sal e acertar um timer, você cozinha. Se dê esse crédito. E aproveite para fazer essa receita de hoje, porque é basicamente dessas habilidades que ela precisa. 🙂

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Pesto trapanese

Ainda não entendi por que esse molho não faz tanto sucesso quanto o pesto genovês, aquele clássico feito com manjericão. É tão gostoso e fácil de preparar quanto ele, e tem uma suculência extra por conta do tomate.

Para 2 pessoas

Ingredientes

250g de massa longa (espaguete, talharim, linguine, etc)
50g (1/3 de xícara) de amêndoas (com ou sem casca)
150g (1 xícara) de tomatinhos tipo uva
50g (1/2 xícara) de parmesão ralado na hora
1/2 xícara de folhas de manjericão
1 dente de alho
Azeite o quanto baste (eu usei cerca de 1/2 xícara)
Sal e pimenta-do-reino moída na hora

Como fazer

1. Coloque água em uma panela alta no fogo. Quando ferver, acrescente 2 colheres (sopa) de sal e junte a massa. Acerte o timer para o tempo de cozimento indicado na embalagem.

2. Enquanto a massa cozinha, coloque os tomatinhos, as amêndoas, o manjericão e o parmesão ralado no processador, com a peça de lâmina, e pulse algumas vezes até ver que a amêndoa está em pedacinhos. Ligue na velocidade baixa e vá entornando o azeite aos poucos, até ver que se formou um molho grosso, ainda com pedaços. Tempere com sal e pimenta e experimente para corrigir o tempero.

3. Quando a massa estiver pronta, escorra e transfira para o recipiente onde for servir. Acrescente o molho, misture com a ajuda de duas colheres e sirva.

Dica

– Para deixar o molho ainda mais saboroso, toste as amêndoas. Esquente uma frigideira no fogo baixo, acrescente as amêndoas e vá mexendo sem parar, até comecem a dourar. Espere esfriar e use normalmente na receita.
– Se você não tiver processador, não aconselho usar o liquidificador, pois ele vai deixar o tomate muito líquido. Em vez disso, pique o tomate, o alho e o manjericão bem fino. Embrulhe as amêndoas em um pano e bata com força em uma bancada ou use um martelo de carne para deixá-las em pedacinhos. Misture tudo em uma tigela com o parmesão e o azeite e tempere com sal e pimenta.
– Se você já fez aquele pesto clássico, não busque a mesma textura dele. O trapanese não é tão uniforme, tem bem mais pedacinhos – e essa é a beleza dele.

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3 Resultados

  1. Andreia disse:

    Que tomates sao esses?! Lindos. Obrigada pela reflexão. Quantas vezes disse que não sei cozinhar mas faço janta todo dia. Beijo