Chocolate quente caramelizado com especiarias

Neste momento está fazendo 6°C em São Paulo e eu aqui, há 767 km de distância, me lembro do frio que passei naquelas bandas no ano passado. A cidade tem uma habilidade única de criar dias com vento, chuva fina e temperaturas com um dígito só capazes de fazer seu dedão do pé morrer congelado – mesmo estando protegido por duas meias e uma bota.

O frio também me traz outra lembrança, essa mais quentinha: a da Lenor. Ela morava na casa onde aluguei um quarto e, nas primeiras semanas, eu evitava olhar pra ela, passar por ela, falar com ela. Era uma gata preta, com os dois caninos pra fora, que, mesmo nunca tendo feito nada comigo, não parecia feliz com minha presença.

Quando os dias gélidos chegaram, ela cismou que queria dormir em uma das almofadas peludas do meu quarto. Por medo de contrariar e sem saber como a gente expulsa gatos dos lugares, eu deixei. Daí uns dias, ela começou a ficar na beirada do cobertor. Depois de uma semana, já andava devagar pela cama de manhã – a gata-bruxa sempre sabia quando eu estava quase acordando. Era só abrir os olhos e ela já estava a postos, me encarando com seu nariz gelado encostado no meu, como quem diz: “você tá atrasada”. Se era fim de semana e eu resolvia ficar de preguiça na cama, ela deitava do meu lado, apoiava suas patinhas no meu braço e ali ficávamos, até tomar coragem de sair e encarar o mundo.

Lenor foi o primeiro gato que conheci. Foi minha primeira amizade felina. Quando voltei para BH, ela entrou para a longa lista de coisas que me dariam saudade de São Paulo.

Há algumas semanas, essa saudade cresceu para o infinito: Lenor decidiu que seu tempo por aqui já havia se encerrado. Andou para um cantinho escuro, deitou e se despediu no silêncio. E eu senti uma tristeza inesperada; o choro saiu sem aviso e fiquei sem entender porque estava tão sentida com a partida de um bicho que só convivi por alguns meses.

Essa foi a magia que a gata feiticeira mais gentil de todos os tempos deixou para mim: a de entender que não existe um tempo ou espaço que determinem o quão apertado é o laço que fazemos com alguém.

***

chocolate quente caramelizado com especiarias-5
chocolate quente caramelizado com especiarias-2
Chocolate quente caramelizado com especiarias

Em BH temos poucos dias frios por ano, por isso, quando eles chegam, a gente fica sem saber o que fazer: quer usar todos os casacos ao mesmo tempo e comer todas as comidas de inverno de uma vez. Num desses dias, eu não conseguia me decidir se queria tomar leite queimadinho, chocolate quente ou masala chai. Então bolei uma bebida que mistura os três. 😉

Rende 2 xícaras

Ingredientes

– 4 colheres (sopa) de açúcar
– 250ml (1 xícara) de leite integral
– 250ml (1 xícara) de creme de leite pasteurizado (fresco)
– 2 favas de cardamomo abertas
– 2 fatias finas de gengibre fresco
– 1 pedaço de canela-em-pau de cerca de 7 cm
– 1 anis-estrelado
– 100g de chocolate amargo picadinho (acima de 60% de cacau)

Como fazer

1. Em uma panela em fogo baixo, espalhe o açúcar no fundo e espere derreter. Evite mexer com uma colher. Enquanto for derretendo, vá girando a panela para que a caramelização ocorra por igual.

2. Quando o caramelo atingir uma cor âmbar, coloque o leite de uma vez só (com cuidado, pois vai espirrar). O caramelo irá endurecer, mas não tem problema – quando a mistura esquentar, ele volta a derreter. Acrescente o creme de leite e vá mexendo com uma colher. Assim que levantar fervura, desligue.

3. Junte o cardamomo, o gengibre, a canela e o anis. Tampe a panela e deixa infusionar por cinco minutos.

4. Ponha o chocolate picadinho em uma tigela. Coloque uma peneira sobre a tigela e entorne o leite por cima. Você pode reutilizar as especiarias que ficaram na peneira para fazer um chá.

5. Deixe o leite quente e o chocolate descansarem por um minuto e em seguida misture com uma colher grande ou batedor de arames (fouet). Sirva logo depois. Para fazer a bordinha com açúcar, eu mergulhei a beiradinha da caneca no chocolate quente e depois no açúcar demerara.

Dicas

– Você pode usar qualquer leite para essa receita, desde o desnatado até o de amêndoas. A diferença vai ser que, quanto mais gordura ele tiver, mais cremoso vai ficar. Inclusive, se você não faz questão que o chocolate quente fique beeeeeem cremoso, pode dispensar o uso do creme de leite e usar só leite (500ml no total).
– Eu tenho ficado cada vez mais incomodada com o creme de leite de caixinha. Estou achando o gosto estranho e a textura muito grossa, provavelmente porque eles têm muitos espessantes químicos. Se você não tem problema com isso, a receita vai dar certo com ele (não sei dizer sobre o de lata, pois quase não uso). Mas, se puder, utilize o pasteurizado!

Você pode gostar...

2 Resultados

  1. Erica Pavitra disse:

    Só tenho a dizer: MALVADA!… 😉

Comente!