Diário de uma ausência

Ilustração: Mathiole

Ilustração: Mathiole

(Como parte de um exercício de escrita criativa do curso Go, Writers, me propus a passar 16 dias sem algo muito importante pra mim, documentando minhas impressões sobre a ausência. Eu decidi deixar de usar meu forno – e aqui estão alguns fragmentos desse diário.)

Dia 1

Eu sabia que ia sentir sua falta, mas não imaginava que seria logo no primeiro dia. Achei que estava preparada para nossa separação, afinal, gastei muito silêncio pensando se pedir esse tempo era realmente a melhor saída. No fim das contas, decidi que era mesmo hora de experimentar novos jeitos de fazer as coisas, de cortar o laço de dependência entre nós. O coração apertou quando, por um momento, esqueci da sua ausência e juntei aveia, mel, linhaça, castanha, canela. Enquanto mexia com a colher de pau, percebi que sem você não tem como fazer granola. O gosto da mistura crua é doce como a liberdade e amargo como o arrependimento.

Dia 3

Pipoca em vez de pão de queijo. Tapioca de tomate e manjericão em vez da pizza de pão sírio. Legumes no vapor e não assados. Pão na chapa para acompanhar o café no lugar do bolo de maçã que asso toda terça-feira. Entre panelas e torradeiras, estou achando lugares ensolarados para existir sem você. Hoje fiquei lembrando do último dia que estivemos juntos, daquele bolo de chocolate cheirando a casa toda, do garfo atravessando macio cada pedaço, mas logo soprei para longe essa memória. A saudade é capaz de nublar a razão que nos fez escolher certos caminhos. E eu preciso de céu aberto – ainda tenho 13 dias pela frente.

Dia 6

Recaí. Pior: recaí e nem me dei conta. Te procurei ontem de madrugada e só hoje à noite, quando passei pela cozinha e olhei pra você de relance, me lembrei de como tudo tinha acontecido. Abri a geladeira durante uma crise de insônia e vi uma abobrinha me dando oi. Resolvi usá-la para fazer um pão. Chamei ovos, queijo, farinha e fermento e, 20 minutos depois, estava pronto. Deixei ele esfriando na mesa da cozinha e fui dormir. Hoje, como não tomei café nem almocei em casa, segui o dia achando que meu plano de dar um tempo de você estava dando muito certo. Que tristeza descobrir que não. O coração tem mesmo caminhos que a razão desconhece.

Dia 7

“Quando eu dou por mim / Já é depois do fim, eu voltei / Quando eu vou reagir, juro não repetir / Eu não sei, me entreguei outra vez…” Estou com esse pagode na cabeça e não é à toa. O lapso de ontem mexeu comigo: parece que desliguei algo no meu cérebro que já tinha se acostumado com a nossa rotina separados. No supermercado, enquanto a caixa passava minhas compras, percebi que tinha pegado metade daquelas coisas pensando em você. Cada vez que leitor de código de barras fazia “pi”, algo também apitava na minha cabeça – o pão sírio era pra fazer pizza, o frango inteiro pra assar, a laranja-baía pra fazer bolo – e eu ia pedindo “ah, por favor, tem como cancelar isso?”, “ah, esse pão também, desculpa”. A fila atrás de mim me olhava como se eu tivesse começado a terceira guerra mundial. Voltei para a casa sem saber o que fazer de janta e com a droga do pagode cantando em looping: “não é recaída, não é reinício / Não é sem carinho, nem é compaixão / É um restinho de amor, é desejo, é vontade…”

Dia 9

Hoje tomei um banho como não tomava há muitos verões, talvez desde que mudamos daquele apartamento na Augusto de Lima e deixamos para trás a “gorducha”, melhor ducha do mercado brasileiro. O chuveiro da casa nova não é como aquele, ainda assim, sem explicação, hoje ele parecia outro. Foi um banho daqueles em que a água parece medicinal, batendo nos ombros e dissolvendo caroços, lavando cansaço, mandando a preocupação para o ralo. O vapor me transportou para um palco onde cantei Paulinho de Viola e Pixies com o pote de xampu e recebi aplausos deixando a franja molhada cair no rosto. Não tinha prazo, conta, burocracia. Não tinha a falta que sinto de assar bolo e pão de queijo. Hoje eu te traí com o chuveiro – e nem estou arrependida.

Dia 14

Fases do luto, número 3: raiva.

Eu estou pensando em muitos palavrões nesse momento, palavrões que eu nem sabia que era capaz de formular. Não aguento mais, cansei do fogão, cansei de omelete,  tapioca, macarrão, misto quente e legume no vapor que tem gosto de domingo à noite. Parei de me perguntar por que cismei que esse tempo sem você ia ser bom, pois já me convenci de que foi uma péssima ideia. Eu escolho me privar de tanta coisa, fritura, refrigerante, bacon, Kardashians, doce todo dia, bicho de estimação, vestido da Antix, ímã de geladeira… Não aguento mais pensar sobre isso, quanto mais escrever. Que coisa mais irritante admitir que preciso tanto de você.

Dia 15

Desculpa por ter me estressado ontem. Sei que deve estar sendo difícil pra você também, 15 dias no frio, parado, sem a gente se falar direito (teve aquela recaída, mas estava sonâmbula, então não conta). Eu só consigo pensar numa lista de coisas que eu quero fazer quando a gente se reencontrar: bolo de avelã com chocolate, babka, granola com coco, brioche, pizza integral, pão de hambúrguer, baguete, muffins de milho, bolo de laranja e azeite…  Você vai me aceitar de volta, né?

Dia 16

Eu prometo não me irritar com sua falta de coerência na temperatura. Prometo não te xingar quando o bolo solar ou queimar nas beiradas. Prometo sempre me alegrar com o cheiro que você espalha pela casa. Prometo te agradecer quando a pizza sair perfeitamente dourada ou os cookies ficarem sequinhos por fora e molinhos por dentro. Prometo nunca me esquecer do quanto você é importante na minha vida.

Eu te amo, forno! Casa comigo?

 

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15 Resultados

  1. Erica disse:

    Nossa! Sensacional! Vou ter que concordar com a sua mae… Toda vez que leio suas cronicas sinto uma inveja (branca, claro!) da forma que voce escreve… Mas, cada um com o dom que Deus deu… E assim vivemos as diferencas e brindemos a elas!!!
    Parabens!!! Beijocas

  2. Maravilhoso, Nina! Sejam felizes para sempre, você e o forno <3

  3. Silvana disse:

    Sensacional! Parabéns pelo exercício.

  4. Maria Thereza disse:

    Amei! simplesmente…

  5. Déa Lúcia Pinto de Castro disse:

    Toda vez que leio suas crônicas eu penso: eu queria ter escrito isto. É como se eu estivesse tento as suas sensações e vivenciando suas experiências.Quando vamos ter bolo de laranja?. Me chame, porque eu quero dar um beijão no seu forninho e em vc é claro

  6. Simone disse:

    Marina, vc escreve lindamente, parabéns! Lá em casa também estamos numa onde de evitar o forno e tudo que é elétrico, mas é por conta da conta de luz que anda nas alturas, então compramos aquela velha misteira de fogão, ela é para 2 mistos e até espetinho de churrasco estamos fazendo nela, vamos torcer para o gás não aumentar tanto quanto a energia, senão teremos mesmo é que fazer dieta.. oh vida!

    • Marina Maria disse:

      Obrigada, Simone! Essa misteira de fogão é ótima, né? Quebra o maior galho e acho que o misto fica mais gostoso. Por aqui meu forninho elétrico também tá trabalhando bem menos pra economizar energia… assim vamos levando, né? Um beijo!

  7. Isadora Moema disse:

    Sensacional, Marina!
    Adorei o desafio, adorei seu estilo de escrita, adorei saber que não sou só eu que se priva de “fritura, refrigerante, bacon, Kardashians, doce todo dia, vestido da Antix…” (sério, descreveu todas as minhas angústias, dando destaque pro vestido da Antix. rs).
    Descobrindo um novo blog preferido da vida.

    Parabéns pelo trabalho. <3

  1. 7 de abril de 2015

    […] Quem me acompanha pelo Instagram já sabe que no dia 1º de abril comecei um projeto pessoal chamado “30 nuncas”. Durante esse mês, todos os dias vou fazer algo que nunca fiz antes – isso inclui também provar e cozinhar com novos ingredientes. Não estou mirando coisas grandiosas, tipo pular de pára-quedas ou viajar pro Japão, mas sim encontrar pequenas novidades que podem ser encaixadas na minha rotina. Me inspirei em uma projeto muitíssimo legal da  Elisa Mendes e Steffania Albanez, chamado 365 nuncas – no caso delas, o desafio foi fazer algo novo todos os dias durante um ano. Também gostei muito da experiência de escrever um diário focado em algum tema, como aconteceu há algumas semanas quando fiquei sem usar o forno. […]

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