Meu chiclete azul-piscina

Mathiole

Ilustração – Mathiole

“Entre a minha gente, tanto do lado magiar quanto do mexicano, temos uma longa tradição de contar histórias enquanto nos dedicamos aos afazeres diários. Perguntas sobre como viver a vida, especialmente as que se referem a questões do coração e da alma, são na maior parte do tempo respondidas com uma história ou uma série delas. Nós consideramos as histórias um parente nosso vivo, e por isso nos parece perfeitamente razoável que, como um amigo chama outro para entrar na conversa, também uma determinada história chame uma segunda história específica, que por sua vez evoque uma terceira, com freqüência uma quarta e uma quinta, eventualmente mais outras, até que a resposta a uma única pergunta se estenda por diversas histórias”.

Clarissa Pinkola Estés – O jardineiro que tinha fé

Eu e Clarissa compartilhamos do mesmo tipo de gente. As histórias da infância da minha família materna sempre pipocam aqui e ali, às vezes em encontros, às vezes em conversas particulares, como pontos que tecem a trama da nossa identidade familiar. Elas fazem parte de um universo quase ficcional, dada a distancia entre a realidade da geração deles e a nossa: eu e meus primos não sabemos como é ter apenas uma toalha para a família inteira e ganhar maçã de presente de aniversário.

Um desses casos apareceu por volta dos meus dez anos, quando estava com minha mãe na cozinha. Peguei um babaloo de uva no potinho do armário, mastiguei umas três vezes e decidi que não tinha gostado do sabor. Joguei fora. E ela, especialista em broncas indiretas, começou a contar: “chiclete colorido era muito caro na minha época, sabia? Aliás, até chiclete branco era raridade. Eu passava dias mascando o mesmo, guardando e tirando debaixo da mesa”. Fiz cara de nojo, ela riu. “De vez em quando a gente apontava só a pontinha do lápis de cor e mastigava essas raspinhas junto com o chiclete branco pra ele ficar colorido.”

Lembro de ter achado essa história incrível e ter pensado sobre ela durantes muitos dias. Num deles, durante a aula de Artes, comecei a apontar um lápis azul-piscina e não resisti: juntei no canto do papel as pontinhas coloridas, saquei um chiclete de caixinha da mochila e masquei um pouco. Tirei da boca e pressionei contra os pedacinhos azuis. Mastiguei de novo.

A professora percebeu minha distração e veio andando em passos lentos até chegar ao meu lado. Me fez uma pergunta, obrigando que eu abrisse a boca e mostrasse seu interior completamente azulado e com restinhos de madeira. Fui levada para a diretoria. Chamaram a minha mãe e me senti culpada – ela teria que sair do trabalho para me buscar. Quando ela chegou e viu minha boca manchada de azul, não disse nada. Entendeu de cara que eu tinha tentado fazer meu próprio chiclete colorido, como ela, sem querer, havia me ensinado.

Não sei dizer se minha experimentação foi uma peraltice qualquer, coisa de criança querendo imitar o outro, ou se a intenção era colocar a lembrança da minha mãe à prova, conferir se dava certo mesmo. Talvez eu só quisesse saber como era o gosto de chiclete com lápis. Meu instinto me diz, no entanto, que fiz aquilo para ter um bom “causo” para contar no futuro. Afinal, naquela altura da vida, e fazendo parte daquela família, já tinha entendido que nós somos as histórias que temos.

Você pode gostar...

7 Resultados

  1. ATorres disse:

    Suas respostas, como a dada ao Alan Alves, são belos complementos aos textos. Você tem o dom!

  2. Alan Alves disse:

    Já ouvi histórias de minha mãe sobre sua infância, mas sobre o valor do chiclete ser caro, nunca ouvi falar. Lembro que minha mãe certa vez me contou que minha vó não tinha dinheiro para comprar pães doces. Daí surgiu a idéia de por açúcar nos pães francêses com manteiga Pra levar de lanche de escola. Quando ouvi isso senti um pouco de tristeza. Gerações diferentes, espero ter boas histórias pra contar para meus filhos e netos.

    Lindo texto Mari.
    Forte abraço.

    • Marina Maria disse:

      Eu também sentia tristeza quando ouvia essas histórias, Alan, mas depois percebi que isso era meu e não da minha mãe ou dos meus tios. Pelo menos no caso deles, essa não foi uma época triste. A vida que eles levavam tinha muito amor, por isso a falta de algumas coisas materiais não parecia falta, era só um dia normal. Eles não tinham com quem se comparar pra sentir que tinham menos. Talvez esse seja o problema, a comparação. Um beijo!

  3. Camila Mimi disse:

    me encanta muito seus textos e as histórias dentro de histórias.

    morrendo de amores !

    bjo queirda

  1. 14 de março de 2015

    […] 6- Meu chiclete azul-piscina. Histórias de infância com certeza são as melhores. No Sal de Bolinha […]

Comente!