O ladrão de empadinha

Ilustração: Mathiole

Aquele dia começou como todas as minhas terças-feiras começam há três anos. Eu acordei, abri as cortinas, respondi mensagens no celular, comi uma torrada, escovei os dentes, lavei o rosto, troquei de roupa, prendi um rabo de cavalo, coloquei os fones de ouvido, liguei na rádio Guarani, peguei a sacola de compras e fui em direção ao Mercado Central.

A terça era uma exceção no resto da semana e não sei explicar por quê. Nos outros dias as coisas nunca aconteciam numa mesma ordem, muito menos num mesmo horário, por mais que eu tentasse. Por mais que eu fizesse planilhas de Excel e colasse post-its no meu laptop, meus dias eram feitos de improvisação.

No Mercado, eu deslizava pelos corredores sem precisar pensar – meu corpo já sabia de cor os movimentos. Os pés conheciam o trajeto, a voz repetia “bom dia”, “tudo bem?”, “quanto tá?”, “brigada”, “pra você também”. A sacola enchia sempre na mesma ordem: queijo, castanha, pimenta, verdura, mel, chá, grãos. O estado automático permitia abrir espaço na minha cabeça para qualquer pensamento diferente de “o que eu preciso comprar, mesmo?” ou “onde fica a banca de pimenta?”. Ter a mente livre era um alívio raro.

A última e melhor parte das compras era encostar no balcão do Ponto da Empada e pedir uma empadinha de queijo para viagem, já pensando no café da tarde. Depois de pegar a embalagem das mãos da vendedora como quem segura um bibelô de cristal, eu colocava o saquinho de papel delicadamente por cima das outras compras e ia embora.

Foi no trecho da volta que aquela terça deixou de ser como as outras. A dois quarteirões de casa, senti uma pessoa esbarrar com força na minha sacola e tive certeza que ia cair. A queda foi dessas que acontecem em câmera lenta e, durante aqueles longos segundos, tentei entender o que estava acontecendo. Minha primeira hipótese foi “alguém passou correndo e me fez tropeçar”, mas, uma vez no chão, uma mão estranha enlaçou as alças da minha sacola e saiu correndo com ela.

Apoiada nos cotovelos, avistei uma calça jeans, um tênis e um menino muito rápido se distanciarem com as compras. Vi também pessoas à minha volta perguntando se eu estava bem, se tinha me machucado. Uma delas tentou perseguir o menino. Outra disse: “ele levou a sacola e não a bolsa, ainda bem.”

Realmente tive sorte: eu, meu celular, minha carteira e meus óculos de estimação estávamos intactos. Ainda assim, só conseguia pensar no queijo, no mel, na castanha. E principalmente na empadinha. Na empadinha indo embora. Na empadinha morna, na casquinha crocante e amanteigada, no recheio cremoso e salgadinho. Na empadinha espatifando no chão, mesmo tendo sido embalada com cuidado. Na empadinha indo pro lixo, depois de ter virado um mero conjunto de farelos.

Cheguei em casa um pouco assustada, com o joelho doendo, sem sacola e sem empadinha. Olhava para o vazio sem saber como continuar o dia. Então percebi. O que mexeu comigo não foi a violência ou o susto, não foi o ladrão ter levado minhas compras. Foi ele ter roubado minha rotina.

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2 Resultados

  1. Manu disse:

    texto maravilhoso, Marina.
    engraçado como a gente se prende não nos dinheiros em si, mas nos apegos.
    dia desses, dois pivetes rasgaram meu pescoço tentando roubar um cordãozinho no centro do Rio.
    me desvencilhei dando uma cotovelada em um – eles seguiram o rumo deles, sem cordão e com um pouco do meu pescoço debaixo das unhas.
    independente do valor da “jóia”, ela carregava uma medalhinha escrito “Deus te guie” que é o meu xodó (e foi da minha avó).
    daí hoje eu me pergunto: será que era melhor ter deixado ir? Deus podia ajudar aqueles meninos?
    bjo.

    • Marina Maria disse:

      Manu, sua história me fez pensar. Realmente é difícil explicar esse apego que temos a determinados objetos. Acho que como sabemos que gente é mais efêmero que coisa, damos uma dimensão sentimental ao que é material para que aquela pessoa – ou o sentimento ligado a ela – possa viver mais tempo ou seja mais tangível pra nós. Enfim, é uma boa conversa pra mesa de bar! rsrs. Um beijo!