Minha casa imaginária

“Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa
em que nasceu.”

Assim como Mário Quintana, ainda vivo na Rua dos Economistas, 645. Não vim ao mundo lá, mas foi onde aprendi o que é uma casa. Quando fecho os olhos, vejo as janelas de madeira, a bougainville avançando pela grade e a árvore enorme do lado de lá do portão.

Se fosse imaginar a casa mais  fantástica do mundo, a base do meu desenho seria esse lugar onde morei durante toda a minha infância. Mas no meu esboço, nenhuma azaléia plantada na entrada foi arrancada por um sujeito qualquer subindo a rua. E a árvore robusta enraizada no passeio não foi cortada por um funcionário mal-humorado da Prefeitura, deixando só um pedaço triste de tronco. Aliás, no alto dela está a casinha na árvore  que meu pai finalmente construiu, onde eu e meu irmão guardamos biscoitos de chocolate e nossa coleção de revistinhas da Turma da Mônica.

Entrando pelo portão, eu sinto cheiro de bolo todos os dias, não só às sextas-feiras.

Meu quarto não tem nenhum barulho esquisito à noite. E nunca fica totalmente escuro, já que a lua aparece exatamente na moldura da janela e deixa um clarão no meio da parede. Enquanto durmo, as meias andam pelo quarto até encontrar seus respectivos pares; assim, quando acordo, não perco tempo procurando cada uma delas antes de calçar o tênis.

No alpendre, a casinha de cachorro não está vazia. Tutti passa os dias mordendo panos velhos e dormindo no sol.

O banheiro tem gavetas e prateleiras secretas, espalhadas por todas as paredes – assim meus batons não ficam embolados com o gel de cabelo do meu irmão por falta de espaço. Dentro do box, cada azulejo é um pequeno armário para guardar as ideias que surgem durante o banho, para que não fujam depois que desligamos a torneira.

A cozinha é meu lugar favorito. Ela é capaz de aumentar e diminuir de tamanho de acordo com o desejo do morador: se há alguém sozinho, ela fica bem aconchegante, com um balcão, uma cadeira e um vasinho de flor. Nos dias de festa, é capaz de abrigar todos os convidados sentados numa imensa mesa de madeira.

Na sala, a estante escura não guarda livros grossos cujos títulos não compreendo. Ali fica minha biblioteca de saudades, todas devidamente catalogadas. Na sessão “Comidas” estão saudades que juntei principalmente na infância: Docinhos em formato de fruta da tia Silvia – Farofa da tia Zizi – Coxinha de frango da cantina da escola – Chocolate Surpresa. Logo ao lado, fica a prateleira mais difícil de organizar: “Saudades do que ainda não vivi”.

Bem no meio da estante há um lugar especial. Logo abaixo da sessão “Pessoas que já passaram”, fica uma caixa grande, encapada em pano florido. Nela, guardo as saudades do portão, do quarto, do jardim, da cozinha, dos Natais, das festas de aniversário, dos banhos de mangueira, dos beijos, sorrisos e sonhos, todos parte da casa que realmente existiu.

***

Esse texto foi escrito para o projeto “Casas Imaginárias”, parte do “Casa Aberta”, do Rodrigo Ladeira, mas não foi selecionado para publicação. Resolvi, então, trazê-lo para a sessão Crônicas de Quinta. 😉

A ilustração aí embaixo é do Mathiole, meu irmão. <3

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15 Resultados

  1. Tiago disse:

    Nada como ler um belo texto para trazer de volta as memórias da infância e alegrar a madrugada entediante de trabalho…

    • marinamaria disse:

      Ei Tiago! Que bom ver você por aqui! 🙂 Fico contente de saber que você gostou do texto e ele de alguma forma melhorou sua madrugada… Um beijo!

  2. Fernanda disse:

    Caramba, há muito tempo não lia um texto tão lindo assim! E o que dizer da ilustração? PERFEITOS…E FEITOS UM PARA O OUTRO! :)))
    Parabéns pelas belas lembranças, traduzidas em letras, e obrigada por alegrar meum finalzinho de domingo!

    Abraços!

  3. Estou chorando aqui, e não consigo decidir qual dos adoráveis cômodos que tu reinventou é o meu preferido <3

    • marinamaria disse:

      Bárbara, eu fico muito feliz de saber que essa casa que mora no meu coração há tanto tempo também emociona outras pessoas, viu… <3 Um beijo, querida!

  4. Semiramis disse:

    Que lindo Marina! A casa da minha infância também está guardada no coração, no detalhe, o que me dá uma alegria enorme. Fico encantada com a sua forma poética de escrever. Parabéns! Beijos Mirinha

  5. Lilian disse:

    Lindo d+!! Tb tenho minha casa imaginária 😀 Beijos

  6. Camila Mimi disse:

    buniteza d+! é d+ p meu <3 essa ilustração e esse texto juntinhos…. sim, chorei!

  1. 30 de dezembro de 2014

    […] – Minha crônica favorita: Minha casa imaginaria […]

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