Comida vizinha

Se a grama do vizinho é mais verde eu não sei, mas o cheiro da janta dele sempre parece melhor que o da minha. Lá pelas oito da noite, quando ainda procuro ânimo pra cozinhar algo que não seja misto quente, entra pela fresta da porta a certeza de que o apartamento da frente está fazendo bife acebolado. Tem dia que posso jurar que é frango a passarinho. E mesmo que eu resolva ir para o fogão preparar alguma coisa, fica sempre aquele cheiro me cutucando, dizendo “ah, você quer mesmo é o rango do vizinho.”

No restaurante, sou dessas que bica o que a mesa ao lado tá comendo, chama o garçom no canto e pergunta: “o que aquele moço ali pediu?”. E sempre quero comer um naco do prato da pessoa que está comigo, independente se o meu parece mais bonito que o dela – inclusive, na maioria das vezes, eu faço isso, então peço desculpas publicamente se já irritei alguém com meu garfo intruso.

Um amigo que morou na Índia me contou que lá nos restaurantes os pedidos chegam e são colocados no centro da mesa, como se não tivessem dono, para que todos possam comer de tudo. É um conceito estranho, mas acho que resolveria meu desejo pelo prato alheio. Para além da minha gula, esse gesto de dividir a comida é muito interessante, ainda mais se pensarmos que comemos cada vez mais sozinhos, sem compartilhar nem uma conversa – quanto mais uma refeição.

Voltando na comida do vizinho, talvez ela pareça mais gostosa simplesmente porque não é a que está no meu prato. Porque ela é só uma ideia – e no mundo das ideias tudo é sempre melhor e mais gostoso. Aliás, vou tentar me concentrar nisso na próxima vez que sentir o cheiro delicioso de linguiça frita vindo do apartamento do lado. Vou olhar pro meu pão integral com queijo e pensar: a linguiça é só uma ideia; come seu sanduíche, pelo menos ele é real. Ou então, vou finalmente tomar coragem e ir lá na dona Alda pedir pra filar uma jantinha.

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4 Resultados

  1. Beatriz C. disse:

    Olá! Sou designer gráfico e um cliente me passou este site como referência (o negócio dele nada tem a ver com o seu, mas ele disse que é o site mais bonito e organizado que já viu, então me indicou como uma referência). O que acontece é que eu até já entreguei o trabalho e não consigo parar de entrar aqui hahahaha
    Entro todos os dias, leio todos os textos, contemplo as fotos… e o interessante é que eu odeio cozinhar. MESMO. Sou um desastre, daquelas que quebra tudo e derruba espuma da louça no feijão (feijão que minha mãe manda, porque nem imagino como que faz aquilo).
    Mas seu site me encanta porque é tão bem escrito e as receitas são tão perfeitas… E no fim descobri que é um sonho que tenho, conseguir me organizar na cozinha e produzir coisas lindas assim. Enquanto não consigo, vou me virando com sopas de pozinho, feijão emprestado e passo aqui todos os dias para me inspirar.
    Parabéns! 🙂

    • marinamaria disse:

      Oi Beatriz! Recebi seu comentário e fiquei aqui pensando como responder esse carinho de um jeito que você entenda o tanto que fiquei feliz! Colocar o novo projeto no ar foi um processo muito longo, principalmente porque não sou designer e muito menos programadora. Precisei aprender muita coisa, me irritei muito, tive muita dúvida, e no final ficou do jeito que eu queria, sabe? Então descobrir que você curtiu tanto quanto eu é muito legal! Mais legal ainda é saber que gostou também dos textos e das receitas. Vou te contar uma coisa: eu comecei na cozinha sem saber nada, só lendo e viajando nos livros de receita da minha mãe. O interesse vem assim, na teoria, mas rapidinho ele chega na prática. O importante é tentar, qualquer coisa – comece pelo omelete, por exemplo, a primeira receita do blog. E quando der errado, entenda que a cozinha é assim mesmo, laboratório. Algumas coisas a gente só aprende a fazer depois que erra. Eu aprendo essa lição até hoje! Ontem mesmo fui tentar fazer uma pastinha que deu errado… rsrs. Bate uma frustração no início, mas logo passa, sabe. Espero você voltar pra me contar qual receita testou, viu? Um beijo!

      PS. Feijão nem eu sei fazer, acho um mistério fazer um bom feijão…

  2. Sara Gomes disse:

    Adoro comer no mesmo prato com outra pessoa … pena q nem sempre as pessoas deixem !!! 🙁

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