Um labirinto onde me acho

Descascar um quilo de batatas, lavar panela suja de caramelo, passar camisa de gola. Nenhuma dessas tarefas me irrita mais do que ter que fazer compras no supermercado. O que era um dos meus passeios favoritos quando criança virou uma obrigação bem chata, já que agora preciso me preocupar com dinheiro, lista, peso, fila.

Talvez eu tenha dado azar, pois os supermercados perto da minha casa estão sempre cheios – de pessoas comprando, de produtos caros, ruins ou sem preço e de funcionários nem um pouco solícitos. A preguiça é tanta que prefiro pagar mais caro para comprar cebola na padaria ou detergente na farmácia.

Como posso, então, gostar tanto fazer compras no Mercado Central de BH? Me fiz essa pergunta outro dia, enquanto zanzava por um de seus corredores-labirintos. Não é o lugar mais barato, nem o mais fácil de encontrar as coisas, nem o mais perto da minha casa.

A alegria está em visitar lojas com pessoas em vez de corredores extensos e prateleiras milimetricamente arrumadas. Comprar olhando no olho de vendedor – e só depois de provar se a castanha está novinha – me lembra que relações de consumo envolvem gente. Lá é também o lugar de produtos e comidinhas especiais. Graças ao Mercado, descobri o árabe da  D’Hana, o sanduíche de pernil com abacaxi da Bárbara, as castanhas da Ananda, o limão-capeta do seu Osvaldo, o queijo Catauá

Também amo o mercado por um motivo que faz muitas pessoas não gostarem dele: o caos. Eu entendo. Durante muito tempo, apesar de me divertir com lojas que vendiam só mandioca ou ovos e adorar aquele monte de ervas e pozinhos, achava tudo bagunçado e confuso e detestava sentir que estava passando nos mesmos corredores várias vezes.

Há alguns anos, passei a ir no Mercado semanalmente e descobri que esse sentimento de confusão nunca some totalmente – mas a gente aprende a navegar com ele. Com o tempo, desenhamos um tipo de mapa mental do lugar, dependendo das lojas que sempre estão no roteiro. E esses mapas nunca são iguais: quando vou ao Mercado com minha mãe, ela chega nas barracas por outros caminhos e corredores. Diante do caos, cada um acha seu próprio jeito de dar lógica às coisas. E assim a procura por páprica defumada acaba virando uma busca de sentido.

Mesmo quando preciso comprar algo que não está no mapa, eu adoro o Mercado. Mesmo quando pareço estar num caos feito de palha, queijo e pistache, é ali que me acho.

caos e logica

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4 Resultados

  1. Déa Lúcia Pinto de Castro disse:

    Para quem queria ser “dançora”, escritora e bailarina o Mercado Central é um prato cheio para você. Gosto dele como você descreveu e sentir o cheiro das “misturebas”
    A gente dá voltas literalmente, mas é bom também..
    Adorei sua crônica, ela me trouxe o passado quando meu passeio de criança era ir lá.

  2. Amanda Cardoso disse:

    Oi Marina! Estou lendo seu textos e amando! O site está lindo! Você está de parabéns! 🙂

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