Gourmetização + Pãezinhos grudados com manteiga de ervas

Quando surgiu na França, “gourmet” não era um adjetivo para comidas, e sim para pessoas: ele indicava um conhecedor de vinhos e alta gastronomia. Parece que um abismo separa essa definição da que vem sendo usada nos últimos anos. O uso indiscriminado da palavra não só banalizou o termo como passou a redefinir várias comidas populares, com a função principal de tornar esses pratos mais caros e adequados para um público disposto a pagar por eles. Daí surgiram coxinhas, brigadeiros, bolovos, pipocas e mais um mundo de outros produtos “gourmet”.

Não estou dizendo que uma coxinha gourmet não possa ser gostosa. Na verdade ela pode até ser deliciosa, mas não é isso que a palavra “gourmet” quer indicar. Ao dar à coxinha esse status, está sendo feita uma apropriação deste salgado de rua, que busca resignificar – e muitas vezes negar – suas origens populares.

Já ouvi que as duas coisas podem conviver tranquilamente, que há espaço (e público) para o cachorro quente de carrocinha e o feito com salsicha importada. Não sou contra o uso de ingredientes diferentes ou refinados em comidas simples ou mesmo a releitura de clássicos. O que me incomoda muito é quando a coisa deixa de ter um objetivo inovador e passa a funcionar apenas como uma estratégia comercial. É isso que a palavra gourmet vem fazendo: ela entrega apenas um conceito, desenha uma linha que divide o que é “ordinário” do que é “especial” e, em última instância, o que é pobre do que é rico. E não necessariamente indica algo gostoso, bem feito.

Tive a sensação de “isso já foi longe demais” essa semana, lendo uma matéria do Guia da Folha compartilhada por um amigo. O texto falava do SP Coffee Week e a legenda da primeira foto era: “Na Urbe, o café coado vem com uma cestinha de BISCOITOS DE POLVILHO GOURMET”. Fiquei imaginando: que ingrediente “requintado” pode ter em um biscoito de polvilho? Pelo jeito, é mais um caso em que o adjetivo só tem a função de conferir status e não ajuda a qualificar a comida, explicar o que ela é, como ela é feita, o que a torna diferente.

Nesse mesmo dia, li também o post do Carlos Alberto Dória sobre o projeto de comida de rua em São Paulo. Recomendo a leitura do texto inteiro, mas vou reproduzir aqui um trecho:

“A legislação aprovada mostrou que não se constitui numa oportunidade para a comida de rua tradicional. Haverá um controle das administrações regionais sobre essa atividade e a aprovação (o Termo de Permissão de Uso” do espaço público) dependerá de uma comissão a ser estabelecida em cada uma delas, com representantes da vigilância sanitária, do CET; uma burocracia enorme e, é de se supor, uma alta dose de arbítrio. Você, de sã consciência, acha que aquele camarada que vende pequi nas esquinas do centro, ou vende mandioca em carrinhos de pedreiro, bolo, pastel ou queijo da Canastra, conseguirá se legalizar?”

O que me faz voltar à questão deste post. Se o gourmet a principio beneficia o consumidor que deseja uma comida “diferenciada”, o que ele faz pelas coxinhas e brigadeiros tradicionais, da padaria da esquina?

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Pãezinhos grudados com manteiga de ervas

Nos Estados Unidos esse tipo de pão é chamado de “monkey bread”. Acho uma opção legal para servir numa reunião de amigos, pois dispensa faca e os potinhos podem ficar espalhados pela casa. Se quiser fazer em uma forma só, utilize aquela com furo no meio, para que o calor possa circular entre os pãezinhos. Depois dá até para desenformar em um prato.

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Levemente adaptado daqui

Ingredientes

Para a massa

– 2 colheres (sopa) de água morna (lembrando: morna, não quente!)
– 1 ½ colher (chá) de fermento biológico instantâneo seco
– 1 colher (chá) de açúcar cristal
– 2 ¼ xícaras (chá) de farinha de trigo
– ½ xícara (chá) de leite integral
– 1 ovo grande
– 1 colher (sopa) de manteiga derretida (13 gramas)
– 2 colheres (sopa) de ervas frescas picadinhas (eu usei dill, mas acredito que ficaria bom com alecrim, tomilho ou sálvia, ou uma combinação)
– ½ colher (chá) de sal

Para a manteiga de ervas

– 6 colheres (sopa) de manteiga derretida (78 gramas)
– 2 colheres (chá) de ervas picadinhas

Como fazer

1. Se você tiver uma batedeira com gancho para bater pão, comece a massa na tigela dela. Se não, utilize qualquer tigela grande, como eu fiz. Misture o fermento, a água morna e o açúcar e deixe fermentar por cerca de 10 minutos, até que seja possível ver algumas bolhas bem finas na superfície. Junte então o restante dos ingredientes na ordem acima. Misture com um colher grande ou ligue a batedeira e bata até que a massa desgrude das laterais da tigela.

2. Coloque a massa em uma superfície limpa e sove com as mãos por cerca de 7 minutos. Se você tiver usado a batedeira, ela já terá feito o trabalho por você. A massa deve ficar macia e úmida. Se sentir que está muito seca, pingue um pouquinho mais de leite; se achar que está muito grudenta, polvilhe levemente com farinha, até achar o ponto.

3. Forme uma bola e transfira o pão para uma tigela levemente untada com azeite, cubra com filme plástico e deixe fermentar em um lugar quente e úmido por cerca de 30 minutos, ou até que a massa tenha crescido – mas não precisa necessariamente dobrar de tamanho.

4. Com ajuda de uma faca grande, parta a massa em três pedaços, e cada pedaço ao meio, terminando com seis porções. Divida cada uma delas em oito. Você terá 48 pedaços. Abra cada porção com as mãos, formando um quadrado, junte as pontas no meio e dê um “beliscão”, para mante-lás juntas. Vire do outro lado e role um pouco na bancada, formando uma bolinha. Repita o processo com o restante da massa. (Nessa é hora é ótimo chamar alguém para ajudar!).

montagem paozinho

5. Misture a manteiga derretida às ervas que estiver usando. Passe cada bolinha nessa manteiga e coloque sete ou oito em um potinho ou ramequim que possa ir ao forno. Cuidado para não amontoar demais os pãezinhos, pois eles ainda vão crescer nesse recipiente.

6. Deixe que os pães cresçam novamente por cerca de 20 minutos. Enquanto isso, preaqueca o forno a 180 graus. Antes de assar, pincele o restante da manteiga de ervas por cima e polvilhe com um pouquinho de sal.

7. Leve ao forno por cerca de 12 minutos, até que fique dourado e bem macio. Deixe amornar e sirva.

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2 Resultados

  1. Flávia Dorado disse:

    Nina, outro dia passeando em um shopping aqui em Brasília, encontrei uma Brownieria… lembrei de você. No que vai dá esse mundo gourmetizado!

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