Lewis Carroll e frango frito + Chutney de pimenta e pimentão vermelho

“Grande Sertão Veredas mudou minha vida”. “Nunca mais fui a mesmo depois de assistir Blade Runner”. Quantas vezes já ouvi pessoas contando de livros, poemas, textos, filmes e vídeos que mudaram a forma como viam o mundo. E quantas vezes já me peguei lembrando do momento em que li Alice no País das Maravilhas, aos 8 anos, e senti pela primeira vez identificação por uma personagem. Até aquele momento, as meninas que apareciam nas histórias eram invariavelmente princesas ou bruxas e estavam sempre atrás da mesma coisa – marido ou vingança. Com Alice, aprendi que a heroína podia ser confusa e questionadora.

Na minha lista de experiências transformadoras, estão também algumas comidas que provei pela vida afora. A primeira vez que estive na Itália e participei de um jantar cozinhado a várias mãos, percebi como o sentido de comunhão da comida era muito importante para mim. Nesse mesmo dia eu comi um verdadeiro tomate italiano, mordendo feito fruta, e imediatamente entendi a paixão daquele povo por bons ingredientes. É um amor de gratidão, de completa alegria por existir algo tão maravilhoso no mundo quanto um perfeito tomate.

Quando viajei para Buenópolis, uma cidadezinha no interior de Minas, aprendi que comida excelente pode ser feita em qualquer lugar. Num boteco minúsculo, com mesas de madeira desgastada e algumas mosquinhas voando, comi uma das melhores refeições da minha vida. Um arroz com feijão, salada e frango frito que ficou para sempre na minha memória e me fez sentir envergonhada de ter virado o nariz para a simplicidade daquele lugar.

Seja por abrir um mundo novo ou  propor reflexões pessoais e sociais, comer também é uma forma de enxergar a realidade sob uma nova perspectiva. A cozinheira de Buenópolis foi tão importante para minha construção de sentido quanto Lewis Carrol e sua narrativa fantástica.

E você, que comida mudou sua vida?

***
Chutney de pimenta e pimentão vermelho

Eu tinha essa receita guardada há alguns meses, mas estava esperando a época de pimentão para que os preços abaixassem um pouco. Finalmente chegou! O que posso dizer sobre esse chutney é que depois dele meu queijo quente nunca mais foi o mesmo. É perfeito também para servir com carnes, principalmente de porco. E ainda vou testá-lo com hambúrguer!

chutney de pimenta e pimentão vermelho-6

Ingredientes

– 4 pimentões vermelhos
– 3 a 5 pimentas dedo-de-moça, dependendo do quanto você gosta de coisas apimentadas (leia mais nas dicas)
– 1 colher (sopa) de azeite
– 1 cebola roxa picadinha
– 1 colher (chá) de de alecrim fresco picado
– 1 folha de louro
– 1 pedaço de canela em pau de cerca de 5 cm
– ¼ de colher (chá) de sal
– 5 colheres (sopa) de açúcar mascavo
– 5 colheres (sopa) de vinagre balsâmico
– ½  xícara (chá) de água

Como fazer

1. O primeiro passo é retirar a pele dos pimentões e das pimentas. Você pode fazer isso de dois jeitos: ou colocar numa assadeira com um fio de azeite e levar para o forno bem alto, até que fiquem bem queimados, ou fazendo isso direto na tremp do fogão, como eu fiz. Desse jeito, é preciso usar uma pinça resistente ao fogo e bastante cuidado na hora de virar os legumes, para que queimem de todos os lados. O importante é queimar a superfície o máximo possível – quanto mais preto ficar, mais fácil vai ser de tirar a pele.

2. Independente do jeito que você escolher, assim que estiverem queimados, transfira os pimentões e as pimentas para um saco tipo ziplock e feche bem. Se não tiver um saco, coloque num tigela e cubra com papel filme. Deixe abafado até que esfriem o suficiente para serem cortados.

3. Abra os pimentões com uma faquinha e retire a parte central e as sementes. Sob um fio de água na pia, esfregue a pele para que se solte. Faça o mesmo com as pimentas, tirando as sementes e a pele. Cuidado na hora de manipular a pimenta, que pode causar queimaduras. Lave suas mãos entre uma pimenta e outra – e nada de coçar o olho!

4. Coloque os pimentões e as pimentas em um processador e pulse até que fique bem picadinho. Se não tiver processador, use uma faca afiada para picar o mais fino possível.

5. Numa panela em fogo médio, aqueça o azeite e junte a cebola, o alecrim, o louco e a canela. Mexa por cerca de 10 minutos, até que a cebola fique dourada.

6. Junte o restante dos ingredientes, mexa e abaixe o fogo. Deixe apurar sem tampa, por cerca de 25 minutos, até que o líquido tenha reduzido e a mistura engrossado. Acerte o tempero e espere esfriar para servir.

montagem chutney

Dicas!

– Na geladeira, esse chutney dura alguns dias. Se quiser guardar por mais tempo, use potes de vidro esterelizados. Eu fervo os vidros e tampas por uns dez minutos, tiro da água com uma pinça e deixo escorrendo num pano de prato limpo antes de usar.

– Sobre a picância do chutney: eu usei quatro pimentas e achei que ficou um tiquinho de nada mais apimentado do que eu gostaria. Eu gosto de pimenta, mas sou fraca: não sou dessas que bota molho de pimenta na coxinha e gosta do acarajé quente. Ainda assim, amei usar um pouquinho na carne ou no queijo quente.

chutney de pimenta e pimentão vermelho-8

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5 Resultados

  1. dani souza disse:

    Você já foi a Buenópolis??? A uma hora de lá fica a cidade onde minha mãe nasceu: Curimataí…

  2. gpoulain disse:

    que texto mais gostoso! eu tive algumas experiências assim também. lembro de um lugar na beira da estrada que tinha a melhor linguiça da vida, servida com arroz e feijão. foi tão incrível e inesperado! lembro também de algumas experiências cozinhando com minha avó, e também quando meu sogro cozinhou pra mim na cidadezinha que ele mora no interior da França. foi um aligot e canard, coisa que pra gente aqui no Brasil é “chique”, mas que pra eles no sudoeste na França é comum. ele cozinhou pra mim com o maior carinho, e eu envergonhado em conhecer sogros franceses pela primeira vez fiquei encabulado, mas comi uma refeição super saborosa que me marcou. um abraço!

    • marina maria disse:

      oi gui! desculpa a demora para responder seu comentário, tive um problema no WordPress e só agora foi notificada das mensagens da semana passada…

      É engraçado que não interessa ser simples ou requintada, a comida sempre marca porque tem alma, né? Ah, eu morro de vontade de experimentar alligot. Está na minha lista para quando voltar à França. Obrigada pela sua visita! Um beijo!

  3. sheila disse:

    Ótimo texto e ótima receita. Nunca esqueci da sensação de amplitude e solidão que senti quando terminei “Grande Sertão: Veredas” e o imenso prazer quando fiz Tortelli recheado de Zucca e espinafre parecido com os da minha avó.
    Abraços, Sheila.

    • marina maria disse:

      Ei Sheila, me desculpe pela demora ao responder seu comentário, mas tive um problema no WordPress e só agora foi notificada desta mensagem! É engraçado que não conheço uma pessoa que não foi marcada por Grande Sertão. Acho incrível como pode um livro ter esse poder. E fiquei com vontade de comer esse tortelli, deve ser maravilhoso! Um beijo grande!

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