Com pinga, por favor + Torta de milho e bacon

Aperitivo, petisco, belisquete, amuse bouche, entradinha… Eu aprendi um nome só para isso tudo: tira-gosto. E lembro da explicação do meu pai quando perguntei o que significava essa expressão: “é o que a gente come pra tirar o gosto da pinga”. Não entendi porque alguém beberia algo tão ruim que seria necessário tirar o gosto depois. E nem sabia se podia confiar nas definições do meu pai, que durante muito tempo me fez acreditar que existiam peixes com saia e pessoas que comiam os frangos que haviam sido atropelados na rua.

O tempo, a experiência e a ressaquinha do dia seguinte me ensinaram a importância de um tira-gosto numa mesa de bar: entre um gole e outro, é preciso beliscar aqui e ali pra noite se estender mais. E o meu jeito favorito de petiscar é com uma caipirinha na mão, dessas tradicionais mesmo, com cachaça boa, limão bem azedo, açúcar na medida e gelo.

Minha relação com a cachaça nem sempre foi amigável. Aliás, descobri essa palavra só depois de adulta, porque até então o líquido turvo que saía dos garrafões com redes era chamado de pinga mesmo. Conheci a bebida ainda criança, pois costumava ir para o “sítio” de um tio que mantinha um alambique. As aspas em sítio é porque não sei muito bem como nomear um lugar que só tinha paredes de tijolo, chão batido, janelas de lona, um chiqueiro e um galinheiro. Em retrospecto, parece que a pequena fábrica de pinga era a parte principal do lugar mesmo – o resto só estava lá para quebrar um galho.

Naquele meio do mato onde não pegava TV, só carrapato, muitas vezes o que me restava era curtir o tédio e ouvir as conversas dos adultos. Numa dessas, aprendi que pinga era feita de caldo de cana fermentado por bactérias e, fazendo uma ligação com minhas aulas de Ciências, entendi de onde vinha aquele cheiro horrível, que eu carinhosamente chamava de “catinga de cana”. Por conta disso, eram frequentes minhas fugas para casa da Vó Geralda (que não era minha avó de verdade, mas era dessas que todo mundo chama de vó), que era vizinha do sítio e cheirava a pão doce assando (a casa e a vó).

A birra que eu sentia pela pinga durou até os 20 e poucos, quando comecei a experimentar diferentes bebidas e aprendi a diferenciar as boas das ruins. Porque o mundo rodopia, a cachaça virou uma favorita. A mudança do ódio pro amor foi tão brusca que, um dia, saindo para jantar com meu pai – que presenciou todas as caras emburradas que fiz por conta do alambique – ele se assustou quando pedi uma caipirinha para o garçom. Com olhos preocupados, me disse:

– Tem pinga nisso aí, você tá sabendo, né?

***
Torta de milho e bacon

Quando li a receita dessa torta pela primeira vez, há muuuuito tempo, no blog da Flávia Pantoja, o que me chamou atenção foi o trecho que dizia: “um aperitivo cheio de bossa, com um gostoso perfume de bacon defumado e ligeiramente picante: ideal para acompanhar uma caipirinha”. Nunca tinha pensado em “harmonizar” um receita com capirinha. E, realmente, é um par perfeito.

torta de bacon e milho-4

Adaptado daqui

Ingredientes

– ¼ de xícara de óleo de canola ou girassol
– 1 cebola pequena picadinha
– 300 gramas de bacon em cubinhos
– 200 gramas (1 lata) de milho
– 2/3 de xícara (1 potinho ou 170 ml) de iogurte natural desnatado
– 1/3 de xícara de leite
– ½ colher (chá) de molho de pimenta
– 1 ovo
– 1 abobrinha grande (cerca de 200 gramas) ralada
– 1 xícara (chá) de fubá do tipo pré-cozido
– 1 xícara (chá) de farinha de trigo
– 1 colher (chá) de açúcar
– 3 colheres (chá) de fermento
– ¼ de colher (chá) de sal

Como fazer

1. Unte e enfarinhe um forma de 20 cm x 30 cm. Numa frigideira grande, aqueça o óleo em fogo médio e junte a cebola. Refogue por cerca de cinco minutos, até começar a dourar. Junte o bacon e refogue por mais alguns minutos, até que ele fique crocante. Misture o milho, mexa por mais alguns minutos e desligue o forno. Deixe esfriar por pelo menos 15 minutos.

2. Preaqueça o forno a 180 graus. Depois de fria, junte à mistura o iogurte, o ovo e o molho de pimenta. Misture bem e adicione a abobrinha ralada e o fubá. Mexa até ficar uma massa grossa. Por último, incorpore delicadamente a farinha, o açúcar, o fermento e o sal, até que não seja possível ver pontos de farinha na massa.

3. Distribua a massa na forma e alise o topo com uma espátula. Leve ao forno por cerca de 25 minutos, até que o topo esteja dourado e um palito saia seco ao ser inserido no meio. Espere amornar, corte em quadrados e sirva. Fica gostosa também em temperatura ambiente.

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3 Resultados

  1. Flávia Dorado disse:

    Miga, incrível como as coisas se transformam na nossa vida! Da pinga fedorenta ao delicioso drink de caipirinha… Beijos e saudades!

  1. 13 de maio de 2014

    […] – Torta de milho e bacon […]

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