O Natal do 586 + Abóbora assada com alecrim e mel

Depois de adulto a gente percebe o apelo comercial do Natal e se incomoda com as crianças chorando porque não ganharam os tablets que pediram ou porque não receberam brinquedo nenhum. Talvez a nossa infância esteja tão distante que seja difícil lembrar como nessa época nada disso importava – a desigualdade social, o capitalismo, o consumismo. O desejo por algo material – fosse um bicicleta ou uma boneca que fala – era simples, puro e assumido, sem preocupação com nenhum “ismo”.

Na minha família, a gente sempre soube que presente era bônus, não obrigação. Não havia certeza, apenas expectativa. Quando eu deitava a cabeça no travesseiro na noite do dia 24 de dezembro, quase não conseguia pregar os olhos de ansiedade, imaginando se o Meu Primeiro Gradiente estaria embaixo da árvore.

Nessa idade ninguém valoriza o “espirito fraterno”, o “momento de união” ou qualquer uma dessas coisas que vêm escritas nos cartões de Natal. Criança só quer saber de presente mesmo. Ela não sabe quantas horas os pais tiveram que trabalhar para ter um salário, o mecanismo persuasivo por trás de cada brinquedo ou como funciona um parcelamento de cartão. Ela só vê o embrulho ali, na frente dela. É dessa ingenuidade que vem a magia. E essa magia de ganhar algo muito desejado quando se tem 9 anos não pode mais ser experimentada por quem tem 29.

A última vez que me lembro de sentir isso foi no Natal de 93 ou 94. Eu sempre fui adepta a surpresas. Não era muito de pedir o que queria ganhar para meus pais – preferia que eles acertassem sem eu dizer. Meu irmão, ao contrário, sempre gostou de saber. Ele descobriu bem novo onde minha mãe escondia os presentes e sempre bisbilhotava as sacolas para tentar adivinhar o que eram. Na árvore, apalpava cada embrulho e chutava se era algo para mim ou para ele, mesmo eu gritando de volta “não me conta!”.

Nesse Natal específico, no entanto, eu sentia que não haveria surpresas. Não sei por que, mas tínhamos certeza de que o presente seria um computador. Um computador não, um sonhado 586. Para nos assegurar, durante semanas eu e meu irmão procuramos por uma caixa grande escondida nos cantos da casa, sem sucesso. No dia 24, quando percebemos que o maior embrulho da árvore de Natal não caberia nem um teclado, senti que não ia ser daquela vez. E, pensando bem, aquele parecia mesmo um presente impossível. Tão caro e do futuro…

Na manhã do Natal, já estava desapegada do tal computador e fiquei envolvida em abrir os outros presentes. Quando só restavam papéis rasgados no chão, meu irmão, que não estava tão desapegado assim, perguntou: “gente, onde vocês estão escondendo o computador?”. Minha mãe tombou a cabeça levemente para o lado e disse, com olhar de pena, que tinha ficado para o ano que vem. Na hora engolimos seco, mas no minuto seguinte já estávamos um mexendo no brinquedo do outro. De repente, meu pai surgiu na sala com uma caixa gigante nas mãos. Minha mãe começou a rir e ficou claro que eles tinham pregado uma peça na gente… Pulamos em cima da caixa com sorriso no rosto e os olhos brilhando, já pensando nas férias jogando Aladdin e Pinball.

É desse brilho que estou falando quando digo que ganhar um presente desejado tem um peso diferente para a criança. Ela não tem expectativas grandiosas com relação a sua vida, como uma promoção no emprego, um pedido de casamento, a compra da casa própria. Quando se tem 9 anos, ganhar um computador pode ser simplesmente incrível, o máximo que se pode sonhar. Tem algo mais singelo e bonito do que isso?

***

Abóbora assada com alecrim e mel

Eu passei muitos dias pensando no que sugerir como entrada do jantar de Natal. No final das contas, a resposta estava embaixo do meu nariz: os cubos de abóbora assada que faço quase toda semana em casa, mas dessa vez incrementados com mel e servidos com palitinhos. Eles são leves e ao mesmo tiram a fome, sem estragar o apetite para o prato principal. Também funcionam muito bem como um acompanhamento.

cubos de abóbora assada com alecrim e mel

Ingredientes

– 500 gramas de abóbora japonesa com casca
– 3 colheres (sopa) de azeite
– 1 colher (sopa) de vinagre balsâmico
– 4 dentes de alho descascados
– 6 galhos de alecrim fresco
– 2 colheres (sopa) de mel
– Sal e pimenta calabresa à gosto

Como fazer

1. Preaqueça o forno a 200 graus. Retire a polpa da abóbora com uma colher. Descasque e pique a abóbora em pedaços de mais ou menos 4 cm. Se você tem dificuldades para descascar a abóbora, eu faço assim: usando uma faca bem afiada, corto a abóbora em fatias. Em seguida, deito a fatia com a casca virada para o lado e vou tirando a casca aos poucos com a faca.

como descascar e cortar abobora

2. Numa tigelinha, misture o azeite, o vinagre balsâmico, o sal e a pimenta. Experimente para ajustar o tempero. Coloque a abóbora em uma assadeira grande, distribuindo de maneira que se forme uma só camada. Regue com o tempero e misture bem para envolver todos os pedaços.

3. Coloque os dentes de alho e galhinhos de alecrim (reserve um deles para a finalização) entre os pedaços de abóbora.

4. Leve ao forno por cerca de 30 minutos, ou até que as beiradas da abóbora estejam douradas.

5. Distribua os cubos em potinhos, regue com o mel e decore com folhinhas de alecrim.


cubos de abóbora assada com alecrim e mel

Você pode gostar...

3 Resultados

  1. Michele Morais disse:

    Que lindeza! Vou tentar essa semana (se tivermos uma boa abóbora na fruteira)!

  1. 22 de abril de 2015

    […] usei esse jeito de assar abóbora aqui, mas em cubos bem pequenos. Descobri, com essa receita, que assar em pedaços maiores também dá […]