A arte de escrever um livro de receitas + Espaguete com manteiga, alecrim e um gostinho de carne

Na minha última viagem para os Estados Unidos, em maio deste ano, reparei que as livrarias estavam cheias de lançamentos de livros de culinária. Virou um caminho comum publicar livros de restaurantes e padarias da moda e de blogs de comida famosos. Enquanto eu folheava aquele monte de novidades, fiquei me lembrando dos meus livros de receitas favoritos e tentando entender por que gostava tanto deles.

Assim como um livro de literatura precisa mais do que personagens bem construídos ou uma história interessante para ser bom, um livro de receitas precisa muito mais do que boas receitas para não terminar escondido na prateleira. É necessário ter uma linguagem clara, simples e direta, mas o mais importante é que ela seja próxima, que se conecte com o leitor – quase como se o autor estivesse do nosso lado enquanto fazemos a receita. Essa é a base de toda relação de confiança entre o cozinheiro e o livro. Os melhores exemplares, no entanto, vão além, pois conseguem criar um contexto muito definido, um mundo próprio onde a existência de cada receita faz sentido. Esse tipo de livro dá até para ler na cabeceira da cama, longe da cozinha.

Andei pensando muito sobre isso, principalmente na responsabilidade que existe quando se escreve um livro de receitas. A função mais básica, que é redigir com clareza, já é desafiadora. Se algo está errado ou mal explicado e por isso o prato não funciona, haverá desperdício, frustração e perda de confiança. No meio dessa reflexão, fiquei sabendo da morte da Marcella Hazan, que escreveu “Os Fundamentos da Cozinha Italiana”, um dos livros de receitas mais vendidos no mundo.  Ela morreu no último domingo, já velhinha, com 89 anos, e deixou uma legião de fãs com um aperto no coração.

Esse livro, que com certeza está entre os meus preferidos, não virou um clássico por acaso. Marcella faz tudo aquilo que citei no início do post: não só suas receitas são fáceis de entender e despertam vontade de fazer, como todas as explicações sobre os ingredientes, as peculiaridades de cada região da Itália e os detalhes do modo de preparo criam um cenário muito próprio do livro. E a relação de confiança é tanta que, se numa primeira leitura eu estranhei várias receitas, hoje estaria disposta a testá-las – porque já fiz muitas outras e todas cumpriram o prometido.

Esse post já está muito grande e não vai caber aqui a explicação de como a Marcella e seus livros foram importantes para a popularização da comida italiana, principalmente nos Estados Unidos. Sobre isso, recomendo a leitura desta matéria do New York Times.

Com esse livro, Marcella Hazan, a avó italiana que adotei para mim, me fez apaixonar ainda mais pela Itália e me mostrou que a simplicidade é a coisa mais linda que existe na cozinha. Grazie, Marcella.

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Espaguete com manteiga, alecrim e um gostinho de carne

Essa receita foi uma das que quando li pela primeira vez, virei a cara: essa história de usar cubo de caldo de carne me pareceu estranha. Depois, numa leitura mais atenta, vi a explicação para o molho, inspirado nas massas que são servidas com aquela sobrinha que fica no fundo da travessa de carne assada, chamadas “la pasta col tocco d’arrosto”, ou “massa com um toque assado”. Na falta falta de sobras de carne, Marcella criou esse molho para simular o sabor. Parece uma ideia estranha, mas fica delicioso. Aqui eu fiz como prato principal, mas o ideal mesmo é servir como acompanhamento de carnes.

Espaguete marcella hazan-3

Serve 2 pessoas como principal ou 3 como acompanhamento

Ingredientes

– 2 dentes de alho
– 3 colheres de sopa de manteiga
– 1 talo grande de alecrim fresco
– ½ cubo de caldo de carne ou 2 colheres de sopa de caldo de carne caseiro
– ¼ de xícara de parmesão fresco ralado
– 200 gramas de espaguete

Como fazer

1. Coloque uma panela grande com água no fogo. Quando ferver, adicione duas colheres de sopa de sal, espere ferver de novo e adicione a massa, cozinhando pelo tempo indicado na embalagem. Enquanto cozinha, prepare o molho.

2. Amasse os dentes de alho com a lâmina da faca e descarte as cascas.

3. Desfolhe o alecrim e pique grosseiramente as folhas.

4. Em uma panelinha em fogo baixo, derreta a manteiga e junte o alho e o alecrim. Mexa por alguns minutos, enquanto a manteiga espuma. Assim que a espuma abaixar, esfarele o caldo de carne por cima ou junte o caldo caseiro. Mexa bem para dissolver tudo e desligue. Se estiver usando um caldo caseiro com pouco sal, prove para acertar o tempero. Descarte o alho.

5. Verifique o ponto do espaguete e escorra quando estiver al dente. Se for necessário, aqueça o molho. Junte o macarrão e use dois garfos para envolver totalmente a massa no molho. Sirva em seguida.

Espaguete marcella hazan-4

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4 Resultados

  1. ABCD disse:

    Um pouco de chilli ou páprica picante tb fica bom.

  2. Eloisa disse:

    Oi Marina, eu tenho o livro da Marcella Hazan, talvez por indicação sua (ou será que foi da Ana da Cucinetta?!) Gostei de saber mais sobre ela, ainda que tenha sido neste momento… mas parece que ela teve uma vida interessante e longa, não é? Obrigada, um beijo da Eloisa.

    *Eloisa Vidal Rosas residência: (21) 2535 0742 celular: (21) 9362 7958

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    Em 2 de outubro de 2013 23:46, Sal de Bolinha

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