Descontando a raiva + Pão sem sova

Eu conheço a raiva de perto; já vi no espelho como ela enruga minha testa quando meu sangue está fervendo, já senti dando beliscão no peito, já enxerguei ela nos olhos de quem gritava comigo. A raiva é cinza, peluda, estridente e pontiaguda.

Sempre tive medo da raiva. Em mim e nos outros. Guiada por ela ou sendo seu alvo, já magoei e fui magoada. Por isso, fui tentando achar jeitos de dissolver a danada quando ela aparecia. Fazer bolos de camadas, por exemplo, era uma boa saída quando era adolescente. E com o tempo apareceram outras maneiras. Ouvir uma música com bastante guitarra, respirar fundo, cantar um mantra. Fazer geleia e sovar pão. Xingar alguém aleatório na TV.

Essa semana, no entanto, fiquei me perguntando se não existe um lado bom da raiva. Se às vezes ela não funciona como um impulso, para dizer ou fazer aquilo que sua razão indica que não tem sentido, mas que algo dentro de você quer mesmo assim.

Os milhares de brasileiros que foram às ruas nos últimos dias estavam sendo guiados pela frustração, pelo sentimento de luta, de esperança. Mas também de raiva. A raiva acumulada serve como um empurrão. Nesse caso, as pessoas se sentiram empurradas para a rua, foram descontar a raiva de se sentirem enganadas, menosprezadas, violentadas. Essa raiva não dá para calar gritando no travesseiro. Essa raiva, desconfio, pode ser o que provoca uma grande mudança.

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Pão sem sova
Comecei essa receita um pouco incrédula de que ia dar certo, mas o final me surpreendeu: um pão macio, com uma ótima crosta e bem saboroso. E o melhor: é fácil de fazer e a gente não sai com o braço doendo!

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Receita do Jim Lahey

Rendimento: Um pão de cerca de 700 gramas

Ingredientes

– 3 xícaras de farinha de trigo
– ¼ de colher de chá de fermento biológico seco instantâneo
– 1 ¼ colher de chá de sal
– 1 ½ xícara de água

Como fazer

1. Numa tigela grande, adicione o fermento, a farinha e o sal. Respeite essa ordem, pois o sal colocado diretamente sobre o fermento pode prejudicar o crescimento do pão. Acrescente a água e misture com uma colher grande até ficar homogêneo. A massa vai ficar bem pegajosa.

2. Cubra a tigela com filme plástico e deixe descansar por pelo menos 12 horas, de preferência por 18, em temperatura ambiente. Esse tempo é calculado numa temperatura ambiente de 21 graus, então se estiver muito mais frio ou quente, o tempo pode variar. A massa está pronta quando a superfície está cheia de bolhas, algumas bem pequenas e algumas maiores.

3. Polvilhe suas mãos e uma superfície lisa com farinha e coloque a massa nela. A massa vai estar bem pegajosa, mas tente abrir no formato de um retângulo e fazer duas dobras sobre ela mesma, no sentimento do comprimento. Unte com azeite ou óleo uma forma retangular de pão e coloque a massa nela com o lado das dobras para baixo. Se você não conseguir dar o formato não tem problema. Apenas coloque a massa na forma untada e vá ajeitando com as mão até que ocupe todo o fundo. Cubra com um pano de prato e deixe crescer até que ocupe a forma toda, chegando quase na borda. O meu demorou uma hora para chegar nesse ponto.

4. Preaqueca o forno a 230 graus por 20 minutos. Se tiver uma pedra para pizza, aqueça o forno com ela dentro. Antes de colocar o pão no forno, polvilhe um pouco de farinha por cima e use uma faquinha serrada para fazer um corte ou dois no topo da massa. Asse por 30 – 35 minutos, virando a forma no meio do tempo para que asse por igual. O pão está pronto quando o topo está dourado e, ao bater com os dedos (como se fosse bater numa porta), você ouvirá um som oco.

5. Deixe o pão amornar, desenforme e sirva. Eu usei para fazer um sanduíche com queijo emmental e cebolas carameladas.

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11 Resultados

  1. Karol disse:

    Descobri seu blog a pouco tempo e a vontade que dá é fazer todas as receitas 😍. Sou mãe agora e o tempo tá corrido. Ainda bem que as receitas são fáceis. Uma dúvida: Posso usar a farinha de arroz?

  2. DENISE HERMOGENES COSTA disse:

    Te descobri hj! Meu pão já está descansando e a mostarda caseira será a próxima receita pois amo mostarda! Que blog maravilhoso! Não pare nunca por favor, parabéns!

  3. Ana disse:

    Será que dá pra fazer com farinha integral?

    • Marina Maria disse:

      Ana, eu também tenho essa dúvida e sempre tive medo de testar. Pães de fermentação longa como esse costumam se comportar de um jeito diferente dos de fermentação rápida, sabe? Então fico com receio da massa ficar muito pesada. Eu começaria substituindo apenas 1/3 da farinha branca por integral e, dando certo, aumentaria aos poucos. Não seja como eu, seja corajosa e teste – depois volta pra me contar! 🙂

  4. Opi Matoaka disse:

    Fiz hoje este pão e fiquei surpresa que tenha dado certo. Mesmo não tendo crescido a massa como eu esperava, ainda assim, ficou com o interior macio e a crosta dourada e crocante. Mas fiquei com vontade de vê-lo dobrar de tamanho e usar para sanduíches. Usei uma fôrma de bolo inglês e o pão ficou mais ou menos na metade da altura depois de pronto. Achei que a massa ficou mais pra líquida na hora que abri. Será que a minha medida de farinha foi pouca e isso pode ter interferido no crescimento?

    • Marina Maria disse:

      Opi, várias coisas podem ter acontecido: se o tempo estava frio, talvez a massa precisasse de mais tempo para crescer (ela tava com muitas bolhinhas quando você moldou?); o tempo da segunda fermentação precisava ser maior, para que ele chegasse quase até a borda da forma ou a forma era muito grande. Se o pão ficou com o interior macio e não embatumado, não me parece que o problema era a massa em si. Ela realmente é bem molinha. Se o problema fosse o excesso de umidade, acho que não teria ficado com a textura certa. Tente usar uma forma menor e deixar mais tempo na fermentação. Você pode também fazer numa panela, caso tenha aquelas de ferro esmaltadas (tipo staub ou le creuset), como é feito na receita original. Dá pra ver nesse link aqui: http://cooking.nytimes.com/recipes/11376-no-knead-bread.

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