Jeitinho brasileiro e arroz à piamontesa

Das revelações que a gente tem na vida: eu precisei chegar em Bolonha, na Itália, para descobrir que “molho à bolonhesa” não era um molho de tomates com carne moída, e sim um molho de carne moída com tomates. Ou seja, a parte principal era a carne, que na maioria das vezes era bem picadinha em vez de moída, e ficava cozinhando no fogo durante horas e horas. Daí entendi que o molho que comi minha infância e adolescência inteira, que ficava pronto em 15 minutos e ia na macarronada, no pão e no cachorro-quente, era só uma adaptação que fizemos no Brasil.

Nessa mesma época aprendi que o tal arroz à piamontesa nunca deu as caras em Piemonte. Ele também foi fruto (vítima?) dessa ginga brasileira na cozinha. Numa época em que achar o arroz para risoto era difícil por aqui, o chefs fizeram uma improvisação, tacando manteiga e creme de leite no arroz comum para torná-lo cremoso como um “Risotto alla Piemontese”, prato típico dessa região da Itália.

Mas não só de adaptações vivem os brasileiros. Inventar também é com a gente. Quando estive em Amsterdã procurei feito uma doida uma tal de “torta holandesa” que havia comido  no Sul do Brasil. Olhando nas vitrines das confeitarias, eu via torta de maçã, stroopwafel, brownies mágicos, mas nada da torta. Um dia estava comprando água numa lanchonete e resolvi perguntar para um tiozinho de barba branca (porque todo tiozinho de barba branca parece simpático). Quando expliquei que procurava uma torta feita com biscoitos, creme de manteiga e cobertura de chocolate que se chamava “dutch pie”, ele fez uma cara de espanto e me perguntou em que região da Holanda eu tinha comido aquilo. Respondi que havia comido no Brasil. Ele deu uma risada e respondeu “aposto que algum holandês foi morar lá, inventou essa torta e enganou vocês todos esses anos dizendo que era uma torta holandesa”.

Algum tempo depois eu descobri que ele estava quase certo: a torta foi criada em Campinas na década de 90, mas por uma brasileira mesmo, que queria homenagear uma família de amigos holandeses. Ela teve essa ideia brilhante de chamar o doce de “torta holandesa” e eu, acreditando que o nome se referia à origem, acabei sendo (merecidamente) zoada por um velhinho holandês do outro lado do mundo…

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Arroz piamontese à piamontesa (aprendi na página do Facebook que é assim que escreve!)

Quem inventou esse arroz eu não sei, mas ele merece um abraço! Sei que existem muitas variações da receita, mas essa é a que eu gosto porque o arroz fica mais “leve” – se é que posso usar esse adjetivo para descrever algo com queijo, manteiga e creme de leite…

Piamontese_1

Serve como acompanhamento para duas pessoas

Ingredientes

– ½ xícara de arroz cru
– ¼ de cebola picadinha
– ¼ de colher de manteiga
– ¾ de xícara de leite integral
– ¼ de xícara de creme de leite
– 40 gramas de queijo muçarela ralado
– 50 gramas de queijo parmesão ralado
– Sal, pimenta-do-reino moída na hora e noz-moscada à gosto.
– ½ colher de sopa de tomilho picado

Como fazer

1. Prepare o arroz como de costume, só tomando cuidado para usar menos sal do que de costume, já que o tempero será ajustado no final da receita. Também preste atenção no ponto do arroz: é bom deixá-lo um pouquinho al dente, pois ele terminará o cozimento durante a preparação do prato.

2. Numa panela em fogo médio, derreta a manteiga e refogue a cebola até ficar transparente. Junte o arroz cozido e misture bem. Adicione o leite e deixe ferver por um ou dois minutos. Abaixe o fogo e junte os queijos, mexendo com uma colher grande para que não grude no fundo da panela. Coloque o creme de leite, dê mais uma mexida e tempere com sal, pimenta e noz-moscada. Continue misturando por alguns segundos, até que o creme engrosse e o arroz fique cremoso. Decore com o tomilho picado e sirva imediatamente.

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5 Resultados

  1. Cibele disse:

    Hummm…. vou fazer.!

  2. Gloria disse:

    Rá! Que ótimo! Não sabia do Piamontese! 🙂

  1. 24 de outubro de 2014

    […] 12. Arroz à piamontesa É o que todo arroz do dia anterior merece. […]

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