Luvas parisienses e brioche

Minha mãe viajou no final do ano passado e sua mala foi extraviada. Nunca mais apareceu. Eu, do lado de cá, fiquei muito preocupada, pensando em como ela ia se virar por 30 dias sem suas coisas. Ela, do lado de lá, lidou muito bem com o acontecido, fez piada e seguiu a vida.

Essa semana, de repente, me lembrei de uma coisa minha que estava na mala dela. Meu par de luvas de couro pretas. Me deu um aperto no coração, seguido do pensamento “por que estou chateada? Eram só luvas”. E e eu não tinha nem o direito de ficar triste pelas luvas, afinal, minha mãe tinha perdido uma mala inteira.

Mas todo mundo sabe que coisas nem sempre são SÓ coisas. São também histórias, lembranças. Têm outros tipos de valores atrelados a elas. Essas luvas, no caso, eu usei quando estive pela primeira vez em Paris. Foram empréstimo de uma amiga que estava me hospedando lá e eu acabei esquecendo de devolver. Esse esquecimento me salvou durante o resto da viagem, já que não havia levado nada para proteger as mãos e houve dias inesperados de frio.

Também tenho toda uma história com luvas, não sei por quê. Gosto de usá-las desde criança. Já fiz minha mãe costurar um par de luvas de renda branca (tipo as da Maria Joaquina em Carrossel, alguém lembra?) e usei na escola na manhã seguinte (sim, fui alvo de bullying no dia – talvez merecido). Adorava quando tinha luvas nos meus figurinos do balé. Depois de adulta e na vida “real”, no entanto, minhas primeiras luvas foram aquelas em Paris.

Mesmo com todo esse cenário, ainda fico pensando: eram apenas luvas. Por que deixei que se tornassem importantes?

Talvez porque as coisas – e por coisas quero dizer uma blusa, um anel, uma bicicleta – passam a impressão de permanência. Você vai no museu e as coisas estão lá, o telefone do séc. XIX, o quadro da Monalisa. Coisas que viveram mais que seus donos. Quadros que vivem muito mais que seus pintores. E daí parece menos arriscado se apegar a elas. Só quando elas quebram, estragam, somem ou se perdem e que lembramos que coisas também são efêmeras.

O bom é que, diferente de perder pessoas ou relações, o elo que temos com as coisas são – ou deveriam ser – bem mais fracos. Tenho certeza que daqui pouco tempo já esqueci das luvas. Aliás, nota mental: não me apegar tanto ao próximo par.

***

Brioche

A história das luvas me fez lembrar de Paris, e para matar um pouco a saudade,resolvi fazer brioche. Não é à toa que esse pão está intimamente ligado à história da monarquia francesa: é um pão bem rico, pois leva vários ovos e muita manteiga. Existe uma forma de fazê-lo à mão, usando uma colher de pau grande para fazer a mistura, mas eu achei que seria difícil porque a massa é pesada. Eu fiz no multiprocessador, mas aviso: se a jarra for pequena, melhor fazer de duas levas. O ideal mesmo é usar uma batedeira que tem a peça de pás para bater pão. Não dá para explicar o tanto que esse pão quentinho com geleia é bom: você tem que experimentar.

Brioche_1

Rendimento: um pão grande ou dois médios

Receita do Peter Reinhart

Ingredientes

Para a esponja:
– 1/2 xícara de farinha de trigo
– 2 colheres de chá de fermento biológico em pó instantâneo
– 1/2 colher de leite morno (é morno mesmo, ou seja, é confortável encostar o dedo. Se estiver quente, matará o fermento)

Para a massa:
– 6 ovos grandes, ligeiramente batidos
– 3 xícaras de farinha de trigo
– 2 colheres de sopa de açúcar
– 1 1/4 de colher de chá de sal
– 200 gramas de manteiga sem sal em temperatura ambiente

– 1 ovo ligeiramente batido com um pouco de água para pincelar

Como fazer

1. Numa recipiente médio, misture a farinha, o açúcar e o sal.

2. Na tigela da batedeira ou no copo do processador, misture a farinha e o fermento. Adicione o leite e bata um pouco em velocidade baixa apenas para misturar. Cubra a tigela (ou coloque a tampa do processador) e deixe a esponja fermentar de 30 a 45 minutos, ou até que tenha crescido e criado bolhas na superfície.

2. Com a batedeira ligada na velocidade baixa ou usando o botão de pulsar do processador, adicione os ovos, um por um, esperando até que se misturem à massa. Coloque então os ingredientes secos em três adições e continue batendo (ou pulsando) até que a massa fique homogênea. Nesse ponto, deixe a massa descansar por 5 minutos para que o glúten comece a de desenvolver.

3. Mantenha a batedeira na velocidade baixa ou ligue o processador na velocidade mais baixa. Adicione a manteiga em quatro partes, esperando que cada pedaço seja totalmente absorvido pela massa antes de adicionar o próximo. Essa etapa vai levar alguns minutos, é preciso paciência. A massa vai ficar pegajosa e pode ser que grude nas laterais – se isso acontecer, use uma espátula para ajudar a desgrudar.

4. Depois de toda a manteiga adicionada, continue batendo por uns dois ou três minutos. A massa fica bem macia, mais firme que a de um bolo, mas mais mole do que um pão tradicional. Forre o fundo de uma assadeira de laterais altas com papel manteiga e unte com azeite. Coloque a massa por cima e use uma espátula para ajeitá-la, formando um retângulo de mais ou menos 25cm X 15cm. Cubra bem com papel filme e leve imediatamente à geladeira por pelo menos 4 horas, ou de um dia para o outro.

5. Na hora de assar, unte uma forma de pão grande ou duas médias. Retire a massa de geladeira e, enquanto está gelada, faça um rolo do tamanho da forma que for usar. Transfira para a forma e use as mãos para ajeitar. Cubra levemente com papel filme e deixe fermentar por cerca de 2 horas, até que dobre de tamanho. Quando faltar 20 minutos para terminar a fermentação, preaqueça o forno a 180 graus.

6. Pincele levemente o ovo batido por cima do pão e leve para assar por cerca de 30 minutos, ou até que o topo esteja dourado e o pão faça um som oco ao ser batido com a mão. Espere amornar, desenforme e sirva em fatias.

Brioche_2

 

Dicas:

– O copo do seu processador precisa ser grande ou sua batedeira  tem que ser potente para conseguir dar conta dessa máquina. Se este não for o seu caso (como não era o meu), faça meia receita ou divida em duas partes para bater. Sovar na mão não é uma opção, já que a massa tem muita manteiga e fica pegajosa com o calor das mãos.

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1 Resultado

  1. silvania disse:

    Puxa, deu água na boca…sabe acabei lembrando dos croissants de Paris…daqueles com passas, se puder descubra como se faz. Bizus !

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