A força da delicadeza (e um chutney de acabaxi)

Minha vida enquanto leitora de quadrinhos é bem recente. Quando mais nova li “Gen Pés Descalços”, do Keiji Nakazawa. Gostei muito, mas foi só. No último ano, comecei a me interessar muito por esse universo, que reapareceu para mim com o “Persépolis”, da Marjane Satrapi. Nunca imaginei, no entanto, que seria possível me emocionar – digo, ao ponto de lacrimejar – com uma história em quadrinhos.

Isso aconteceu com o Três Sombras, do francês Cyril Pedrosa, que mostra os percalços que um camponês enfrenta para salvar seu filho de três sombras misteriosas  que querem levá-lo. A narrativa possui muitas camadas e traz metáforas de algumas questões densas, filosóficas – a vida, o amor, os sonhos, a relação entre pais e filhos. Ainda assim, tudo é dito de forma singela, em tom quase de fábula.

O que ficou mais forte para mim ao final da leitura foi a reflexão sobre a perda. E não necessariamente sobre a fatalidade das perdas, mas sobre a inevitabilidade do amanhã. Quando folheei a última página do livro, fiquei pensando como o medo maior não é do momento em que as sombras surgem, mas do que acontece quando elas vão embora. E no fim das contas, pouco importa se a gente sente medo desse depois – ele vem de qualquer jeito. A vida realmente segue, ainda que não dê para entender como, ou por quê.

Mas preciso confessar que, ainda que a história tenha me tocado de forma muito pessoal, o que mais me emocionou em Três Sombras foi o traço de Cyril. Fiquei perplexa diante da simplicidade das imagens e, ao mesmo, de sua complexidade e força. Isso talvez não faça sentido semânticamente falando, mas é o único jeito que consigo explicar.

Cyril usa a técnica do “pincel-seco”, um pincel sem excesso de tinta que produz uma linha tremida e suja, deixando os quadros ora muito precisos e ora manchados, abstratos. Além disso, a experiência do autor com animação nos estúdios Disney está impressa no livro, que possui um ritmo vivo de leitura, quase como se estivéssemos folheando um storyboard de um desenho animado.

Cada desenho fala tanto que arrisco dizer: é um livro que pode ser inteiramente lido – e sentido – sem que se leia uma só palavra.

***
Chutney de abacaxi
Escolhi essa receita para o post porque acho que ela representa a possibilidade de ser simples e forte, já que a preparação é descomplicada e o resultado é um acompanhamento de sabor marcante. Os chutneys se originaram na Índia e o nome vem da palavra “chatni”, que quer dizer “molho doce e forte”. Esse eu servi com um lombo de porco, e imagino que fique ótimo também em sanduíches ou torradinhas.


Ingredientes

– ½ colher de chá de cominho em pó
– ½ colher de chá de canela em pó
cominho
– ½ colher de chá de pimenta vermelha em pó ou 1 colher de chá de pápicra picante
– Uma pitada (¼ de colher de chá) de noz moscada
– Uma pitada (¼ de colher de chá) de curry em pó
– ½ colher de chá de gengibre ralado
– 3 xícaras de abacaxi picadinho (aqui deu quase um abacaxi pequeno inteiro)
– Suco de 1 limão
– 1 colher de chá de sal
– 2/3 de xícara de açúcar mascavo
– ¾ de  xícara de água

Como fazer

1. Coloque uma frigideira seca no fogo médio. Sem parar de mexer, aqueça o cominho, a canela, a páprica (ou pimenta), a noz-moscada e o curry. É jogo rápido, coisa de um minuto, apenas para “acordar” os temperos. Assim que começar a perfumar, desligue.

2. Em outra panela média, junte os temperos que foram aquecidos, o abacaxi, o gengibre, o limão,  o sal, açúcar e água. Cozinhe em fogo médio, mexendo de vez em quando, por cerca de 15 minutos. Depois tampe a panela pela metade e abaixe o fogo. Continue cozinhando por mais 15 ou 20 minutos, mexendo eventualmente, até que engrosse e fique parecendo uma compota, ainda com pedaços do abacaxi. O líquido irá reduzir e ficará na consistência de uma calda rala.

3. Sirva quente, morno ou frio. Pode ficar na geladeira por até 3 dias.

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1 Resultado

  1. Mario C. disse:

    Texto muito bom. Três Sombras será minha próxima leitura de quadrinhos.

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