Por que a sobremesa vem no final? (e um Alfajor Líquido)

Tem dias que me dá vontade de comer chocolate logo que acordo. Às vezes na hora do almoço quero devorar uma fatia de pudim antes do prato principal. Quando era mais nova, eu comia meu sundae de caramelo do McDonald’s antes da batatinha e do hambúrguer. Sei que esses hábitos podem parecer esquisitos, mas na verdade isso de que o doce tem que vir depois do salgado está relacionado mais a uma construção social do que à fisiologia do paladar.

Nos banquetes da Idade Média, que precederam o que conhecemos hoje como gastronomia, não existia ordem para comer: a mesa era posta com carnes, ensopados, pães, tortas, queijos, frutas, bolos, mel. Não havia diferenciação entre categorias de pratos e tudo era comido ao mesmo tempo, do jeito que cada um quisesse. Um dos motivos para essa fartura de doce e salgado era a vontade de ostentar – aquele monte de comida junta simbolizava a riqueza do anfitrião.

A idéia da sobremesa servida no final da refeição é relativamente moderna e se deu graças a Catarina de Médicis, que em 1533 saiu de Florença para se casar com o futuro rei francês Henrique II. A italiana levou para a França muitos livros de receitas e seus próprios cozinheiros. Foi só a partir dela que a corte passou a aceitar mulheres nos banquetes, a comer com garfos e a saborear a sobremesa apenas no final da refeição.

Mas foi só no século XIX que a ideia de apresentar os pratos numa certa ordem foi aceita completamente, e os cozinheiros passaram a montar cardápios, sempre finalizando-os com o doce. Esse jeito facilitou a vida do chef, que então tinha uma ordem estabelecida para servir seus pratos, e foi bom também para o comensal, que passou a aproveitar a refeição sem que a comida esfriasse.

Assim, o ato de servir a sobremesa no final é algo que faz mais sentido para todas as partes envolvidas. Mas eu ainda acho uma delícia comer o doce antes do salgado.

Para saber mais:
Grand Finale – Matéria da revista Vida Simples

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Alfajor Líquido
Descobri essa receita simples e deliciosa no restaurante Benvindo, do chef Paulo Henrique Vasconcelos. Eu alterei um pouquinho as quantidades para ter mais creme do que farofinha, mas você pode adaptar do jeito que gostar mais.

Rendimento: 2 porções grandes

Ingredientes

– 200 ml de creme de leite fresco ou de caixinha (se puder usar o fresco é melhor)
– 200 g de doce de leite
– 15 biscoitos do tipo Maria
– 80 gramas de chocolate meio-amargo

Como faz

1. Numa panelinha em fogo baixo, mexa o creme de leite e o doce de leite até que formem uma misture homogênia. Desligue e espere esfriar.

2. Triture os biscoitos até que formem uma farofa bem fina. Isso pode ser feito no processador ou liquidificador, pulsando a mistura aos poucos. Ou então coloque os biscoitos num saquinho tipo ziplock e bata com um martelo de carne, ou passe o rolo de massas por cima até que vire farofa.

3. Raspe, pique ou rale o chocolate.

4. No recipente onde irá servir, coloque algumas colheres do creme já frio, espalhe a farofinha de biscoitos por cima e finalize com o chocolate raspado.

5. Sirva em seguida ou, para um creme mais consistente, deixe a sobremesa montada na geladeira por algumas horas.

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9 Resultados

  1. Festa junina é uma loucura! Doce depois salgado… depois doce de novo! Uma farra!

  2. Déa Lúcia disse:

    Sempre me deu vontade de comer doce antes durante e depois da comida de sal. Acho que estou no tempo das minhas avós, que punham tudo na mesa pra você se sevir. Tudo de bom. bjos ancestrais

  3. Tatá disse:

    Meu desejo pelo doce vem antes, durante e depois do salgado. Na verdade, como salgado por pura obrigação! Amei essa receita. Facinha, facinha e deve ser divina!

  4. Taís disse:

    Não é sempre, mas em muitas ocasiões meu desejo pelo doce antes do salgado aparece, e me permito felicíssima “comer ao contrário”! Uma delícia!

  1. 5 de agosto de 2011

    […] Essa receita de longe foi a que me intrigou mais. Cheguei até a mandar um e-mail para a Nina Horta, pedindo ajuda para entender se era isso mesmo, um doce com carne de galinha. Ela não só confirmou, como me explicou que as comidas de antigamente, principalmente as de herança portuguesa, nem sempre tinham essa diferenciação de ingredientes doces ou salgados. Me lembrou desse post que fiz sobre a origem da sobremesa. […]

  2. 6 de junho de 2013

    […] Entrada: Sopa de cebola Prato Principal: Penne ao molho de linguiça e creme de leite Sobremesa: Alfajor líquido […]

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