Improvisação: no cinema e nas batatas

Outro dia descobri que uma das cenas que mais gosto no cinema foi parcialmente improvisada.

Na arte,  a improvisação não depende só da criativadade, mas do total comprometimento com o ato em si. Um boa improvisação acontece quando há domínio – da cena, do corpo, do personagem, da técnica, da música, ou o que for – e ao mesmo tempo há uma entrega total ao momento. É algo que se faz sem racionalizar, mas que ao mesmo tempo demanda de muito repertório.

Na cozinha, “improvisar” é usado para descrever o que se faz quando surge uma visita inesperada para o café ou quando é preciso preparar o almoço e a geladeira só tem eco. Isso acontece por aí todos os dias e parece a coisa mais boba do mundo, mas a capacidade de improvisar, de criar a partir do que é dado, sem roteiro, sem menu, é uma habilidade incrível – e penso que grandes receitas já surgiram dessa capacidade.

Fico imaginando, por exemplo, as freiras do conventos portugueses, com suas bochechas vermelhas e avental bordado, olhando para aquele monte de gemas que sobravam depois de engomar as roupas com claras de ovos… Daí para criar o quindim e o papo de anjo deve ter sido um pulo.

Uma ótima improvisação que já saiu da minha cozinha foi com batatas. A dona da improvisação na verdade foi minha mãe: a idéia começou com uma receita que vimos em algum programa de TV de batatas recheadas, mas não tínhamos nenhum ingrediente em casa – a não ser as batatas. Então ela improvisou.

Outro dia, ao abrir a geladeira, me lembrei dessa receita: não tinha carne, nem arroz, nem feijão, nem ovo, nem legumes. Tinham apenas algumas batatas bolinhas e vários pedaços de queijo, que sozinhos não iam dar verão.


Então foi assim:  as batatinhas foram cozidas com casca em uma panela grande com água (calcule cerca de quatro batatinhas por pessoa). O ponto de cozimento é o seguinte: assim que você enfiar uma faquinha na batata e ela entrar com facilidade, desligue o fogo. Esse ponto é crucial: as batatinhas não devem estar firmes e nem cozidas demais, apenas macias.

Daí é só escorrer as batatas e partí-las ao meio no sentido do comprimento. Em cada metade, com a ajuda de uma colher, você irá “cavar” um buraquinho, retirando parte da polpa da batata e colocando-a em outro recipiente.

À polpa da batata você irá adicionar o que tiver em mãos: para dar liga, vale manteiga, requeijão, creme de leite ou até mesmo leite. Eu usei requeijão. Para temperar, sal, pimenta-do-reino e noz moscada vão bem. Adicione também queijo ralado de sua preferência: eu usei um pedacinho de brie com outro pedaço de gruyère e ralei um tiquinho de parmesão.

Use essa mistura para rechear o buraquinho que você cavou nas batatas.

Leve ao forno pré-aquecido por 15 minutos a 200 graus e retire quando o queijo estiver bem derretido.

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